Vamos supor que o pai de Kim Kardashian resolve afogá-la. No dia seguinte, o título da notícia é óbvio: "Kim Kardashian morta pelo pai." Mas agora suponhamos que o afogamento se dá depois de Bruce Jenner mudar de sexo e passar a ser Caitlyn Jenner. Nessa altura é provável que seja: "Por amor, Caitlyn Jenner leva filha a apanhar carreirinhas."
Sendo um pai a matar um filho, não há dúvidas de que é homicídio. Agora, se for uma mãe, não é linear. Há exagero, mas é de amor. É, muito provavelmente, um crime passional.
Depois da tragédia de Caxias, o ‘Público’ elencou uma cronologia de casos semelhantes ocorridos nos últimos anos. Na descrição de cada um, há sempre uma ressalva: uma mãe tomava antidepressivos; outra tinha problemas com o companheiro; outra era doente e desempregada; outras duas tinham uma depressão profunda. Enfim, há sempre uma desculpa. Parece que a violência doméstica, se for praticada por uma mulher, tem atenuantes. Que, aliás, em casos de crimes cometidos por homens, se transformam em agravantes. Um alcoólico que mate a família não é: "coitadinho, era doente". É: "ainda por cima o sacana era bêbado".
Daí o aparecimento de oximoros como "homicídio altruísta" ou "suicídio piedoso" para explicar o que se passou em Caxias. Ao nível de "massacre benevolente", "violação meiga" ou "decapitação suave". Provavelmente, se Hitler tivesse sido uma Adolfa, hoje em dia falaríamos em "holocausto carinhoso" dos judeus.
Há aqui um caso óbvio de discriminação sexual. Mas não é contra os homens, é contra as mulheres. Há uma desresponsabilização das mães, com se não fossem capazes de assumir as consequências dos seus actos. Isto é misoginia, e da boa.
É essa menorização, também, que explica porque é que as primeiras informações depois do afogamento foram sobre possíveis alijamentos de responsabilidade: para o pai das crianças (que não estava presente em Caxias) e para o Estado (que tinha "sinalizado" a situação familiar mas que, por omissão, não tinha impedido a tragédia).
Esta semana, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou o Estado Português por ter retirado sete filhos a uma mãe, pondo-os em instituições para adopção. Uma das justificações que o Estado dera para esta medida extrema foi o facto de a mãe se recusar a laquear as trompas.
Quem acha que o Estado procedeu bem nesse caso, quem acha que o Estado é, ainda que parcialmente, responsável pelo que aconteceu em Caxias, o que é que propõe que o Estado faça? Que retire aos pais todas as crianças sinalizadas? Que retire os filhos a mães deprimidas? Que laqueie as trompas às melancólicas? Ou, em alternativa, propõe o assoreamento do Tejo?
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Já Agora: Censura - 198C4
Vai ser editado em Cuba o ‘1984’, de George Orwell. O que é que se passa na ditadura cubana para permitirem expressão artística desagradável para o regime? Falta em Cuba determinação para impedir certas ideias antipáticas de circularem. Nós temos: o cantor C4 Pedro foi pressionado até retirar do ar uma música em que faz de stalker. Com o seu gesto, C4 Pedro contribuiu para a rejeição de estereótipos de género. Nomeadamente, o que diz que os homens são valentaços.
Receber lições de liberdade de expressão de Cuba é como receber lições de castidade da Cicciolina.
E Mais: Lá se vão mais 1600 fotocópias de despesa
O Tribunal Cível de Lisboa deu razão ao Correio da Manhã, no caso da providência cautelar apresentada por José Sócrates. O Tribunal absolveu os jornalistas e ainda vai obrigar o ex-Primeiro-Ministro a pagar as custas judiciais no valor de 1600 euros.
Mais uma vez se constata que José Sócrates tem muitos apoiantes nos jornais. Ao darem esta notícia, estão a beneficiá-lo. Proibido de contactar outros arguidos, de que forma é que Sócrates iria avisar Carlos Santos Silva de que vai ter de ser ele a desembolsar os 1600 euros?
Só Para Terminar: TAP - Promoção Companhia e Vinho Verde
Oalcaide de Vigo está indignado por Rui Moreira ter chamado "salsicha fresca" à cidade galega, ao mesmo tempo que questionava se a campanha promocional da rota Lisboa- -Vigo, em que a TAP oferece uma noite grátis num hotel, também inclui a oferta de "companhia". O alcaide não tem razão. Quando Rui Moreira fala em prostituição como forma de angariar clientes em Vigo, não pretende ofender. Rui Moreira, enquanto comentador futebolístico adepto do FC Porto, sempre achou normalíssimo que o seu clube pagasse meretrizes a árbitros. A pergunta não é uma boca rasca, é curiosidade sincera sobre a estratégia de marketing da TAP.
Só faltou dizer que, a quem vai de Lisboa a Vigo, a TAP oferece "caramelos espanhóis". Que, coincidentemente, também era código para prostitutas.
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