Francisco José Viegas
EscritorOs grandes romances do Ocidente, ou pelo menos alguns dos seus romances fundadores, como o ‘Lazarillo de Tormes’, ‘A Ilha do Tesouro’ ou ‘Robinson Crusoe’, acabam por – em algum momento – ser encarados como simples “romances juvenis e de aventura”. É uma pena que a maior parte desapareça das nossas bibliotecas de adultos sem ser lida, porque uma parte do seu espírito pioneiro merecia ser distinguido e valorizado.
O ‘Lazarillo’ é narrado por um homem que não sabia escrever e que confessa as suas manhas, truques de sobrevivência e falta de pundonor enquanto marido. Quanto a ‘Robinson Crusoe’, é apresentado como inteiramente verdadeiro e verídico, “uma história factual, não havendo nela vestígios de ficção” – assim o diz o seu editor original de 1719 logo na página 5, depois de ter escolhido um interessante subtítulo para o frontispício da página 3: “A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoé, de York, Marinheiro; que viveu vinte e oito anos sozinho numa ilha desabitada na costa da América, perto da foz do grande Rio Orinoco; tendo sido lançado à costa por um naufrágio, no qual pereceram todos os homens, excepto ele. Com um relato de como foi finalmente libertado de forma tão estranha por piratas.” E, logo por baixo: “Escrito pelo próprio.” Está tudo dito. Estamos diante da invenção do espírito do romance.
Uma grande parte da discussão sobre ‘Robinson Crusoe’ – tanto em 1720 como na posteridade – tem a ver com as possíveis influências e fontes de inspiração. Podem ter sido várias e foram de certeza muitas. Mas Daniel Defoe, que em 1719 deve ter ganho algum dinheiro com as quatro edições sucessivas do livro, nunca se manifestou sobre o assunto, limitando-se a escrever a continuação deste primeiro volume (nunca teve sucesso) e a publicar ‘Moll Flanders’, êxito invejável.
As histórias de naufrágios eram famosas e populares; mas não as de sobrevivência como a de Crusoe, que segue uma vida dedicada ao comércio marítimo, à exploração de plantações na costa do Brasil – e à desgraça. Naufragado, ocupou a sua colónia com método, disciplina, abnegação, eficácia e leitura diária da Bíblia. Utilizo a palavra “colónia” para irritar os militantes pós-coloniais que veem em ‘Robinson Crusoe’ um elemento de opressão e racismo. Marx viu nele o empreendedor clássico, Joyce detetou-lhe a “alma anglo-saxónica”, feita de religiosidade, persistência e calculismo. Quanto a Defoe, deve ter visto nele um homem em busca de sobrevivência depois de ter sido escravo e de ter vendido um rapaz como escravo, depois de ter naufragado e perdido todo e qualquer laço com o resto da humanidade. Quando vê alguém, duas décadas depois, depara-se com canibais e suas vítimas – salva uma delas, Sexta-Feira, a quem ensina inglês, religião e agricultura. As peripécias são de volta inteira até ao final do livro, que inclui o regresso à pátria, onde tinha sido esquecido, e o resgate da sua fortuna em Lisboa, sempre na companhia de Sexta-Feira.
Aquilo que conclui a sua vida é uma extraordinária vontade de contar a história da sua sobrevivência e bem-aventurança depois de reaver o seu dinheiro. Não há nada mais completo na vida de um aventureiro.
CITAÇÃO:
Com efeito, vivia com grandes confortos, estando o meu espírito inteiramente disposto a resignar-se à vontade de Deus e a oferecer-me por completo aos desígnios da Sua Providência. Isto fez com que a minha vida fosse melhor do que seria em sociedade.
TÍTULO: ‘Robinson Crusoe’ AUTOR: Daniel Defoe | DATA: 1719
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