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Luís Campos Ferreira

Luís Campos Ferreira

Silêncio, que se vai cantar o fado

09 de outubro de 2026 às 00:30

Nos bastidores, a voz ia-se elevando para aquecer devagar, como quem prepara um instrumento precioso antes de o tocar para o mundo. A luz do camarim, dourada e suave, desenhava sombras na parede. Pela última vez antes de sair, ajustavam-se ao espelho os pormenores que só quem sobe a um palco compreende. O xaile pousado nos ombros, os últimos retoques no cabelo, a respiração funda, e a porta abria-se para o corredor que separava a pessoa da artista. De repente, chegava à sala. Ao posicionar-se no centro do palco, o espaço enchia-se de um silêncio quase sagrado. Afinal, vai-se cantar o fado! Não era preciso pedi-lo, bastava a presença. Toda a gente já sabia a regra de ouro. E então, naquele que era, para todos os efeitos, o centro do universo dos que ali se encontravam, soava uma voz profunda, que nos falava, como dizia a letra, de uma estranha forma de viver, de amar e de sentir. Cada verso carregava uma vida inteira, com a devida dor e a com a exigida alegria de viver. O público, naquele momento, sustinha a respiração. Aquela voz... não se limitava a cantar. Falava-nos à alma.

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