O ano que passou melhorou, levemente, a vida dos portugueses, mas o que aí vem não parece emendar os nossos destinos comuns. Pelo contrário. Adianto que a tarefa de António Costa tem sido extremamente meritória, embora as ameaças que pairam e o cerco estabelecido em redor do seu governo tenham de ser tomados muito em conta. O ano foi terrível, com assassínios em massa sob a chancela de um grupo muito bem organizado, o Daesh, e apoiado por fundos aparentemente inesgotáveis. Não temos tido dirigentes, a nível internacional, que enfrentem esta ameaça medonha. E a noção de responsabilidade, que se caracteriza pela imputação de um acto ao seu actor, perdeu as suas próprias características. Dizer que os inomináveis crimes atribuíveis ao Daesh pertencem exclusivamente àquela organização é afastarmo-nos das nossas responsabilidades elementares. Alepo, por exemplo, constitui uma monstruosa responsabilidade, parte da qual a todos nós cabe. O mundo, de facto, está cada vez mais um sítio inabitável. É fácil observar os rostos e a actividade dos que mandam na Europa. Aquela União Europeia tão absurda como manietada, mais inclinada a defender e a sobrevalorizar não se sabe bem o quê. E perfeitamente inoperante ante as questões (sobretudo morais, não o esqueçamos) que se erguem no processo europeu.
Perdeu-se, propositadamente, a noção de responsabilidade, caracterizada pela imputação de um acto ao seu actor. As velhas quezílias mudaram de rumo, e as responsabilidades dos nossos malogros são facilmente atribuíveis a quem nada a ver tem com o assunto. Neste perdulário de concepções, estamos sem direcção nem sentido.
Nota – Estive a escutar o excepcional documento humano de João Ricardo, proferido numa das estações de TV. O actor, pelo qual tenho grande apreço e simpatia, foi, há tempos, atingido por cancro. Pelos vistos, é daqueles que não desistem. Bem haja.
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