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Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário

Pregar no deserto

24 de outubro de 2026 às 00:30

António Vitorino, um dos “discípulos” mais amados do nosso ex-primeiro-ministro e secretário-geral da ONU, previu que “vamos todos ter muitas saudades de António Guterres”. Infelizmente, é bem capaz de ter razão. Político inteligente e talentoso, Guterres pode reivindicar o mérito de ter escolhido o lado certo da História. Todavia, o resultado do desempenho não foi o esperado devido a uma infeliz conjunção de circunstâncias adversas. O papel da ONU nos conflitos da Ucrânia, do Médio Oriente e do Irão foi quase nulo (com a honrosa exceção do “acordo dos cereais”). O pronunciamento quanto à Venezuela, a Cuba e à Gronelândia foi inaudível. O apelo contra a emergência climática teve como momento alto uma icónica fotografia com as calças molhadas na “Time”. A corrida armamentista e nuclear ganhou velocidade. A democracia e os direitos humanos perderam terreno. Em suma, Guterres tentou, mas não conseguiu, estando bem acompanhado por políticos com a craveira de Obama. Seguiu, afinal, a tradição de profetas como João Baptista. Resta saber se o seu sucessor continuará a pregar no deserto, optará pelo lado sombrio da força ou terá mais êxito.

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