O homem bufava. Mais microfones, mais avarias. O homem revirava os olhos. Ocasionalmente, lembrava-se da presença das câmaras, tentava sorrir e o sorriso saía-lhe torto. Os microfones continuavam a chegar e a falhar.
A certa altura, o homem solta uma obscenidade e arranca o microfone das mãos de um servente. Grita-lhe qualquer coisa e começa enfim a discursar, um discurso de raiva, com insultos, ameaças e referências à “última gota de sangue” e ao livro dos recordes. Não sei se algum microfone funcionou: os berros do homem dispensavam aparelhagem sonora.
O homem, note-se, não era o imã de uma mesquita radical, era Valentim Loureiro, senhor de Gondomar, que perante milhões de espectadores exibia o lado público do seu carácter. Não quero imaginar o privado.
Naturalmente, os comentadores do serão televisivo desprezaram o episódio. Gondomar, explicaram, é um lugarejo remoto, pouco representativo e impossível de ser comparado com, digamos, Oeiras, concelho urbano, onde só por acaso o autarca eleito frequenta igualmente os tribunais com curiosa assiduidade.
Os comentadores terão as razões deles. As estatísticas discordam: Gondomar não só fica rente ao Porto como tem mais habitantes que Oeiras. Portugal também é aquilo, e se Valentim e as pessoas que o elegeram assustam um bocadinho, Portugal devia assustar-nos imenso.
Aliás, não foi preciso ouvir os proclamados “rústicos”, ou seja, os vencedores de Gondomar e Felgueiras e o derrotado de Amarante, para assistirmos à remoção do verniz democrático. Em determinados casos, mesmo sem a Justiça à perna, o verniz sai num ápice. Ver, por favor, o prof. Carrilho, ilustre académico, que realizou na noite de domingo uma notável homenagem ao ressentimento e à intolerância.
Pois é. Do despotismo triunfante ao rancor derrotado vai um pequeníssimo passo: salvo diferenças de pompa e circunstância, Valentim, Ferreira Torres, Carrilho e a dona Fátima partilham idêntica concepção de democracia, um regime em que o povo é sábio quando vota neles e imbecil na hipótese contrária. Partilham, além disso, uma obsessão: a de que vivem cercados por um mundo hostil, que tudo faz para os vergar. Se ganham, é apesar disso; se perdem, é por causa disso.
No domingo, uns ganharam, outros perderam. Sendo exemplos ‘mediáticos’, as televisões mostraram-nos a rosnar. Mas, por falta de tempo e audiências, as televisões não mostram os inúmeros Carrilhos e Valentins que abundam no País político, para quem as eleições são uma maçada infelizmente obrigatória ‘Cosmopolitas’ ou ‘provincianos’, cuidado com eles: eles não caíram do céu. No máximo, caíram dos partidos. Ou vão cair.
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Por Carlos Rodrigues
A frase do primeiro-ministro sobre os que perderam a vida é infeliz.
Num contexto de alterações climáticas, temos de estar preparados para novas catástrofes.
Este aproveitamento miserável de uma situação de calamidade pública clama por justiça.
Como sociedade, temos de crescer em conjunto.
Já a Kristin se tinha ido embora e ainda havia – e há – pessoas sem eletricidade.