Recentemente, um prestigiado editorialista glosava a contradição existente entre o “chiquismo” da adesão às teses do Bloco de Esquerda e os aspectos mais retrógrados da sua essência.
Recordava que o Bloco continuava a ser o somatório do PSR com a UDP, cujas ideias e programas radicais nunca deixaram de ser assumidos pelas suas páginas na Internet, pelos seus documentos e pelos discursos das suas reuniões mais intimistas.
De facto, assim é. Miguel Portas, Fernando Rosas, Francisco Louçã e Luís Fazenda só passaram a ter um “ar mais lavado”, abandonando, tacticamente, as tiradas revolucionárias de há escassa meia dúzia de anos. Substituíram-nas pela defesa de temas transversais do seu interesse ideológico e programático, normalmente mais próximos da discussão ética sobre valores e costumes do que da organização económica e social do Estado. Só aparecem a combater por causas que qualquer cidadão, progressista e liberal, de esquerda ou direita, aceita discutir. Quando se trata de abordar as grandes questões de política interna são muito mais evasivos, como convém a quem quer fazer esquecer a sua verdadeira essência.
Os seus micro-seminários e comícios, sempre com grande cobertura mediática – nunca vi ninguém tão pouco representativo ser tão idolatrado – causavam-me uma sensação estranha que só há pouco tempo compreendi. Militante do PSD desde 1975 e observador atento da vida do PS, o outro grande partido do sistema, cedo me habituei ao ambiente plural e saudavelmente conflitual das reuniões partidárias. Com pessoas de todas as cores, credos e estractos sociais. Com todos os seus defeitos, o PSD e o PS são os dois núcleos fundamentais do sistema, onde é possível e permitido ao taxista contestar o médico, o operário discutir com o professor, o trabalhador rural divergir do criador cultural. Nas reuniões dos bloquistas, nunca há conflito. Só festa. Só unanimidade. Não vejo suor. Só rostos “marcados pelo sofrimento” de quem se deitou tarde, mas teve as horas que quis para recuperar.
Não vejo a sarja, a chita ou os sapatos de feira. Saltam-me aos olhos as camisas de seda, os “jeans” da rua de St. Honoré, os sapatinhos Armani. Felizmente a televisão ainda não transmite os odores, porque a minha sinusite não aguentaria a intensidade dos perfumes caros de última geração.
Tenho, contudo, uma divergência com o referido editorialista. Este Bloco não quer a revolução, quer o poder e deseja-o para já. A aproximação à actual liderança do PS é notória. E, talvez não tarde muito o momento em que Fernando Rosas seja ministro da Cultura, Miguel Portas dos ministro dos Negócios Estrangeiros e João Teixeira Lopes ministro da Educação. O Francisco Louçã e o Luís Fazenda que se cuidem. O primeiro é demasiado folclórico para adquirir pose de Estado e o segundo é o único com ar de dirigente sindical, impróprio para a imagem do Bloco Reconstruído. É claro que nessa altura desaparecerão as tais páginas de ideologia radical na Internet.
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Por Carlos Rodrigues
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