A aparente simplicidade, a preocupação com os pobres e o reconhecimento dos erros da Igreja em matéria tão sensível como a pedofilia tornam plausível a comparação com o bom Papa João XXIII, se bem que escasseiem os sinais de abertura e tolerância em matérias de sexualidade, celibato ou sacerdócio feminino – que os trabalhos do Vaticano II já prenunciavam.
Entre outras qualidades, Jorge Bergoglio possui um sentido de humor que exercitou logo na primeira intervenção papal, ao ironizar com os colegas que o elegeram vindo de tão longe. Agora reincidiu, dando nota a Durão Barroso de que na sua terra longínqua o português é tido como uma corruptela do espanhol (ou seja, do castelhano). Talvez essa confusão seja corrente na Argentina, mas o Papa não teve em conta a opinião do seu compatriota e homónimo Borges, que, por exemplo, considerava Eça de Queiroz um dos melhores romancistas de sempre.
De todo o modo, o objeto do humor do Papa Francisco não terá sido muito bem escolhido nesta ocasião. O português é falado por cerca de trezentos milhões de pessoas e possui regras próprias nos domínios da fonética, da semântica, da morfologia e da sintaxe. Foi cultivado por sucessivos génios da literatura universal, incluindo Luís Vaz de Camões (que, não por acaso, morreu no dia em que assinalamos o Dia de Portugal). Parafraseando Fernando Pessoa, podemos dizer que a língua portuguesa é a Pátria de sete pátrias repartidas por quatro continentes.
Não há qualquer relato da reação de Durão Barroso ao gracejo do Papa. No entanto, talvez lhe pudesse ter explicado que as discrepâncias entre o português e o castelhano são assaz surpreendentes, apesar de haver inúmeras palavras homógrafas, homófonas ou simplesmente parecidas. Assim, "Francisco" escreve-se da mesmíssima maneira e pronuncia-se de modo não muito diferente em ambas as línguas. Porém, a parecença entre os diminutivos "Paco" e "Chico" não é maior do que a relação entre o engenhoso fidalgo Dom Quixote e o improvisado Juiz da Beira.
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Por Carlos Rodrigues
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