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Carlos Rodrigues

Carlos Rodrigues

Diretor

"Desde a derrota presidencial, Ventura viajava nessa espécie de lugar do morto"

03 de abril de 2026 às 00:31

No fundo, como dizia o poeta, foi o florir do encontro casual dos que hão sempre de ficar estranhos. Dois mundos antagónicos. Nas bancadas, os deputados da constituinte que fizeram a Constituição da República, um texto que, mal ou bem, nos tem guiado na senda da democracia. São homens e mulheres de outro tempo, uma era em que o eixo do regime em construção descaía para a esquerda, de tal forma que até o CDS flirtava com o socialismo. No hemiciclo, no meio dos deputados do presente, um político cujo pensamento e discurso resultam dos desafios e das contradições da nossa era, e que domina como poucos o espaço público na rentabilização do confronto para chegar aos eleitores. Ao abandonarem as bancadas durante o discurso de Ventura, os políticos de há 50 anos sublinharam simbolicamente a respetiva retirada do palco da História, e deram ao líder do Chega aquilo que tem escasseado nos tempos mais recentes: um pretexto para a vitimização, para se apregoar como defensor das liberdades de discurso, e inimigo do politicamente correto. Ventura logrou acentuar a dicotomia com quem buscou silenciar argumentos, neste caso não os ouvindo. Com o incidente, absolutamente dispensável, os deputados da constituinte desvalorizaram a cerimónia, abafaram o discurso ponderado e agregador do PR Seguro, e deram a Ventura ocasião para sair daquela espécie de lugar do morto em que tem viajado desde a derrota nas presidenciais.

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