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Aviso, desde já, que naturalmente sou sensível ao princípio da presunção de inocência até que as sentenças produzidas em sede de julgamento sejam transitadas em julgado e não faço generalizações, uma vez que acredito na existência de gente de bem, não apenas na sociedade portuguesa (obviamente) como no campo mais restrito do futebol.

Depois de aplicadas as medidas de coacção aos arguidos da operação ‘Apito Dourado’, sobretudo às figuras mais rapidamente reconhecidas pelo grande público, nomeadamente Valentim Loureiro e Pinto de Sousa, a reacção mais normal e legítima que se pode ter é que, de facto, esta é uma investigação que pode pôr em causa alguns mecanismos há muito identificados no universo do futebol indígena, na sua parte mais perversa, digamos assim, mas com extensões a outras áreas de negócios, supostamente ilícitos.

Estamos ainda numa fase muito primária do processo, mas os crimes de que são indiciados os arguidos sugerem, para já, que, afinal, pelo menos para a Polícia Judiciária, o futebol não é um mundo à parte – e isso já é alguma coisa e assume a sua relevância.

Trata-se de mais um teste à nossa tão questionada Justiça, que vai iniciar outro debate no quadro específico de advogados, magistrados e juízes.

Já se sabia, pelo tempo de sobra que se lhes deu em matéria de benefício da dúvida, que os agentes do futebol não são capazes de promover a auto-regulação da modalidade, segundo critérios de verdade, equidade e concorrência leal.

Já se sabia igualmente que, uma vez perdida a esperança na regeneração do chamado movimento associativo, a derradeira esperança colocava-se ao nível da alternância política, no quadro dos partidos que compõem o parlamento, mas também é verdade que a jovem democracia que hoje celebramos ainda não encontrou uma forma correcta e, sobretudo, saudável de lidar com os poderes do futebol.

A alternância democrática subjacente às regras que determinam deslocações cíclicas no aparelho de Estado é algo que o futebol não gosta de transportar para dentro de si próprio. Para o universo da bola indígena não houve queda de regime, não houve, enfim, 25 de Abril, naquilo que ele trouxe de positivo. O futebol continuou, como antes, a fazer censuras múltiplas, a não respeitar, minimamente, a liberdade de opinião, o direito à diferença e, mais do que isso, continuou a fomentar o caciquismo local, o compadrio, levando para dentro do seu território e bastidores alguns políticos menos conscientes do seu dever.

O futebol preservou os tiques da ditadura num país entretanto democratizado e os sucessivos governos permitiram-lhe que construísse e consolidasse uma espécie de suprapoder, com regras muito específicas, à luz do princípio que quem não fosse sensível à entronização das pessoas e dos seus caprichos seria, liminarmente, banido.

Foi assim que muitos responsáveis se perderam na história do futebol em Portugal ou porque as suas ideias eram demasiado sábias, ou demasiado descomprometidas, ou demasiado arrojadas. Ao invés, todos aqueles que, fracos de espírito, cederam aos ditames de um certo poder, muitas vezes feito de abusos, pressões, terrorismo físico e psicológico, ajudaram a criar esta espécie de prisão onde estão encarcerados muitos valores que fazem falta – em termos de exemplo – à sociedade.

O futebol, em matéria de suspeição, de falta de controlo e fiscalização, estava, e está, a rebentar pelas costuras.

Escrevi, durante anos, perante a azia dos pseudo-construtivos, que a mentira estava instalada e que era preciso renovar. Arejar as mentalidades e fazer uma coisa que poucos fazem, mergulhados na obsessão de ver o seu clube ganhar a qualquer preço: amar, verdadeiramente, o futebol português, querer-lhe bem, querer vê-lo crescer, com sustentação, com rigor, sem patifarias e, sobretudo, sem se projectar aquela ideia de que apenas os chicos-espertos são vencedores.

A INCOMODIDADE DO GOVERNO

O presidente da FPF descaiu-se quando disse, recentemente, que tudo o que está à volta da organização do Euro’2004 travou muitas coisas que estão por fazer no futebol português. É verdade. A FPF tinha a obrigação de definir uma política desportiva para o futebol do país, evitar a sua total litoralização e olhar para o número de praticantes nas zonas galopantemente desertificadas.

Este Governo, em matéria de política desportiva, não tem conseguido fazer praticamente nada. Os dirigentes (desportivos e políticos) limitaram-se a olhar para a construção dos estádios. Tudo o resto parou, aliás como parece parado o próprio país, que a certa altura deu a ideia de que já não tem salvação, mergulhado em escândalos de todas as espécies.

Libertar Portugal a partir da 'revolução' no futebol pode ser uma boa ideia. Porque o futebol mexe com muita gente e poderia ser utilizado como uma referência em termos de pedagogia. Para a juventude e não só. Porque, em determinado momento, a partir do futebol, deu-se a ideia de que a impunidade compensa.

O partido do Governo está claramente incomodado. Durão não quer ver. Santana (agora) nem quer ouvir (quando andou a saltitar de ramo em ramo, isto é, de Alvalade para a Luz, prestando solidariedade a quem quer). Arnaut não quer falar. A ponta do icebergue revela-se e o poder político mostra incomodidade. Não podia deixar de ser: as responsabilidades de uns são as responsabilidades de outros.

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