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Tal como há grandes restaurantes cujo nome se fez por causa de uma honesta sopa de agriões, as boas revistas devem ser medidas pela frequência com que publicam boas reportagens de uma só página. A receita da simplicidade gostosa dá-a, em cada edição, a mãe de todas as revistas, a brasileira “Veja”. Ela fascina sobretudo porque em cada número, não falha, há um assuntozinho (e outro e outro) surpreendente, tratado de forma curta para não espalhar o prazer.

Em Portugal, quem melhor segue a ‘Veja’ nessa caça aos pormenores soberbos é a jovem revista ‘Sábado’. Nela há sempre a pequena notícia que nos abre mares. Há sempre aquela informação que nos permite, no café, surpreender os amigos: “Sabias que?” Assim foi na semana passada, por exemplo, com a história de Pete Cabrinha.

Cabrinha é o surfista que bateu o recorde mundial de cavalgar ondas. No Havai, na ilha de Maui, desceu por uma onda de 26 metros e já promete chegar a cerca de 33 metros (para os americanos o número é mais mítico: dá 100 pés). A revista americana ‘Time’ fez várias páginas sobre o feito, sublinhando-o graficamente. Belíssimas fotos da onda cavalgada por Cabrinha, aquele ponto negro no azul da vaga e branco da espuma tremenda. A ‘Time’ deu explicações de como o surfista era conduzido ao cume por uma moto de água e fez infografias magníficas sobre como ondas tão altas eram formadas.

A revista portuguesa com o exclusivo da “Time” para Portugal é a “Visão”, que terá achado o assunto sem interesse. Nada publicou. O recorde de Pete Cabrinha passaria despercebido entre nós, não fora a curiosidade (qualidade essencial no jornalismo) da ‘Sábado’: que raio faz um Cabrinha no cume do Evereste aquático? Um Cabrinha, isto é, alguém com nome açoriano, em ilhas que se sabe (isso, quem sabe) têm uma população de origem portuguesa tão forte.

Acicatada pela curiosidade, a ‘Sábado’ fez uma das tais páginas de que os leitores são ávidos. Afinal, o Cabrinha, um homem já de 44 anos e que gosta de alimentar o mistério sobre o seu passado, nem Cabrinha era: chamava-se, de facto, Cabrini e era um brasileiro de origem italiana. Há muitos anos a viver no Havai, no paraíso dos surfistas, na ilha de Maui, o brasileiro Cabrini decidiu mudar o seu nome para português. Adoptou-o de um família açoriana, Cabrinha, com muitos descendentes naquele arquipélago do Pacífico, que é um dos estados americanos.

Já conheci luso-americanos com antepassados Teixeira que viraram De Share e de Soares que se tornaram Sears. Americanizar o nome é típico da nossa emigração na América. Apesar de orgulhosa do seu passado, cultiva a humildade (o ‘low-profile’, como lá se diz). Gosta de desaparecer na paisagem. Pela primeira vez, soube de um descendente de italianos (ainda por cima recordista mundial) que aportuguesou o nome para melhor parecer americano. Eu conheço as ondas da emigração açoriana (e madeirense) que chegaram ao Havai. Mas só com o artigo da ‘Sábado’ soube a altura da vaga.

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