Caro José Luís Arnaut:
Seja bem aparecido! Confesso-lhe que começava a duvidar se, efectivamente, o ministro adjunto do primeiro-ministro tinha vontade não apenas política para tutelar o Desporto em Portugal – e o futebol em particular. Digo isto pelos cuidados que o seu Governo, uma vez eleito, mesmo considerando as muitas polémicas que já então envolviam o Euro-2004, colocou na abordagem do fenómeno desportivo, particularmente no que diz respeito ao desporto-rei.
Volvidos estes meses e nunca deixando de atender a um facto que muito marcou o período eleitoral – a colagem que o Benfica de Vilarinho fez, abusivamente, ao executivo de Durão Barroso – sou capaz de entender o distanciamento do seu Governo em relação a território e a matéria tão explosivos (apesar de achar que se estendeu demasiadamente no tempo) por duas razões mais particulares:
1ª. Em função do mau exemplo dado, neste campo, pelo executivo de António Guterres, cuja pasta do Desporto foi muito mal gerida pelo ex-ministro José Lello, que representava o protótipo do político desejado, reclamado e estimado pelos dirigentes desportivos de referência do futebol nacional, muito na esteira dos cumprimentos, dos sorrisos e do croquete, assim a modos como o empregado de barman, de branco trajado, sem esquecer o indissociável papillon, que circula num espaço delimitado e atapetado, disposto a servir a clientela.
2ª. Por força do poder excessivo daqueles que você mesmo reconhece estarem em primeiro lugar na linha de responsabilidades do actual estado de tensões do futebol português – os dirigentes desportivos –, aos quais foi-se criando, gratuitamente, a ideia e a expectativa de que se poderiam colocar na posição de assaltantes do Estado.
Creia-me que, não obstante gostar muito de futebol e de algumas pessoas que militam no universo cá da paróquia, sempre me fez muita confusão o quero, posso e mando dos dirigentes em relação ao poder político e também a alguns jornais especializados no tratamento das questões do Desporto. Isso tem de mudar e será, talvez, por essa razão que fala da necessidade de uma revolução geracional. Meu caro ministro adjunto: mesmo não citando os nomes, gabo-lhe a coragem de dizer que o futebol em Portugal bateu no fundo por causa dos papas e dos papistas e ainda dos anti-papas papistas.
Todavia, meu caro José Luís Arnaut, apesar dos largos meses que você concedeu ao estudo do meio e no âmbito daquilo que são as suas responsabilidades, talvez não tivesse percebido que percebem a mensagem aqueles que são os destinatários das suas palavras e avisos. O que significa que o futebol no qual você não se revê foi construído e consolidado por Pinto da Costa, Valentim Loureiro e Pimenta Machado, por exemplo, velhos generais cada qual com o seu exército de cauda longa, que a esta hora não devem estar muito satisfeitos com a sua ingénua e inócua asserção, segundo a qual é necessária uma revolução geracional. Se ainda não rebentou deve estar para rebentar a resposta ao seu bem intencionado código de ética.
Quando Pinto da Costa lhe mandar um berro ou apenas uma daquelas finas ironias que ferem os ouvidos lá se vai o código de ética e o seu magistério de influência. De resto, esses códigos estão subjacentes às leis vigentes e aos regulamentos – o problema é aplicá-los.
Meu caro ministro adjunto do primeiro-ministro: por muito que lhe custe não vai conseguir decretar o bom senso, a menos que, neste trajecto, consiga reduzir mandatos ou despromover algum emblema bem instalado. Isto é: mostrar efectivamente que não tem medo.
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Por Carlos Rodrigues
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