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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Confusões

(...) o terrorismo volta a surgir como se um velho fantasma despertasse do seu túmulo para tornar a semear o horror.

Francisco Moita Flores 15 de Janeiro de 2007 às 17:00
A nossa vizinha Espanha continua a viver sob a égide da luta contra o terrorismo. A reaprender as lições de medo e de morte que há muito se julgavam guardadas no baú das más memórias. E é sabido como o terrorismo em Espanha condiciona a vida pública.
Foi por causa dele, e dos trágicos acontecimentos do 11 de Março, que Zapatero chegou ao cargo de primeiro-ministro quando todos o davam como candidato vencido. No prazo de 48 horas, os disparates do então governo de Aznar foram suficientes para o eleitorado dar uma cambalhota e colocar no poder este socialista cauteloso que, agora, se vê confrontado com a mesma dor de cabeça que afligiu os seus antecessores.
Depois de tudo aquilo que já se viveu em Espanha, do imenso estendal de tragédias e mortos, de indignações e combates percebe-se, de repente, que ainda há muito caminho para andar. E percebe-se outra coisa. A vitória policial sobre a ETA, que resultou no esmagamento quase absoluto do seu braço armado, não se traduziu numa vitória política. Não tenho dúvidas de que os actuais terroristas são de uma outra geração mais jovem que herdou a memória da luta política radical que lhe foi legada pelos revoltados de ontem.
Na verdade, na Espanha de hoje, não existem terroristas revolucionários, mas apenas terroristas revoltados. Porque urgem as reformas políticas, porque nem tudo foi feito para que a autonomia basca, e só quem conhece aquele imenso território percebe as razões mais profundas dessa reivindicada autonomia, se tornasse na realidade que a guerra civil e o franquismo esmagaram e que estas duas décadas de democracia espanhola ainda não teve a coragem de assumir na sua mais ampla expressão.
Não admira, pois, que neste momento difícil Zapatero tenha uma linguagem prudente onde a palavra diálogo tenta abrir uma pequena porta no muro de fúria e rebelião que assola as gentes de Espanha. E ou tem a habilidade para por ela entrar e trazer uma paz mais definitiva que passe por reformas políticas ou, então, se resume a sua intervenção a soluções mais ou menos administrativas e policiais que ninguém duvide que as bombas vão tornar a rebentar espalhando a morte e o luto.
Neste tempo em que as atenções do Mundo inteiro, no que respeita ao terrorismo, estão postas na al-Qaeda e nos desastrados esforços de Bush para aniquilar esta organização, aqui ao nosso lado renasce o medo que varreu a Europa durante os anos 60 a 80.
Da ETA ao IRA, das Brigadas Vermelhas às FP-25 julgava-se que só restavam recordações e que chegara o tempo da paz e da civilidade. Afinal de contas, o terrorismo volta a surgir como se um velho fantasma despertasse do seu túmulo para tornar a semear o horror.
Este ressurgimento é uma lição para todos aqueles que cantam vitórias apressadas sobre fenómenos que pouco controlaram e raros souberam compreender. Que ao menos sirva como o sinal de alarme de que nem tudo está feito e é urgente que cumpra o que ainda falta realizar. Politicamente, claro. O séc. XX, o século mais mortífero da História da Humanidade, deixou-nos essa reprimenda. O único caminho possível é sustentado pela paz. Só a paz dá um elevado sentido ético à política. O resto faz parte do mundo dos homens-animais.
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