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Uma sociedade democrática viçosa só existe com o contrapeso de baixo para cima ao poder sistémico. Este, fortíssimo em Portugal, permite a elites legítimas ou ilegítimas a apropriação de bens comuns, a corrupção, a paralisação da justiça e até a hegemonia na comunicação social.

Em 2012, a sociedade civil explodiu no espaço público e soube usar a exposição mediática. Agiu fora dos partidos, que os cidadãos sentem actuar de acordo com interesses próprios, não os seus. Em 15 de Setembro, os manifestantes renegaram o enquadramento partidário, mas não originaram movimentos sociais. O grito extinguiu-se.

Mais importantes foram erupções perenes de sociedade civil. Perante um sistema irreformável, os cidadãos defendem-se no espaço público, em novas formas de acção e com novos protagonistas. Destaco Paulo Morais, também colaborador do CM. É uma voz activa, sólida, factual, avessa à demagogia. Expõe processos legais e ilegais de corrupção, promiscuidades de deputados e interesses económicos. Desmonta o o sistema.

A TV deu espaço a outras vozes, como Tiago Caiado Guerreiro, Carlos Moreno, Domingos Azevedo e Medina Carreira, este em ‘Olhos nos Olhos’ (TVI 24). O êxito do programa deve-se precisamente à denúncia do sistema. Como neste nada muda, havia tendência à repetição, pelo que o programa acrescentou convidados anti-sistémicos, para enriquecer o debate e quebrar a monotonia.

O governo tem ido às canelas do sistema, cortando excessos escandalosos, mas mantém-no. A prova está na permanência de Miguel Relvas, contra toda a seriedade política e a própria credibilidade do governo. Mantendo-o, Passos Coelho mostrou que prefere perder credibilidade a desarticular o sistema impondo a meritocracia e a transparência.

Aqueles protagonistas e outras manifestações da sociedade civil, como os estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos ou o blogue Má Despesa Pública, abrem janelas que abalam a novilíngua de políticos e seus agentes nos media. Estes, todavia, ainda dominam, pois os canais de TV também pertencem ao sistema: apenas deixam entrar um pouco de ar fresco contra a demagogia, a retórica oca e deslocada da realidade de que muitos portugueses, na rua, nos espaços de liberdade na Internet e um pouco nos media tradicionais, revelam estar saturados.

A VER VAMOS

FIM DO MUNDO OU FIM DO JORNALISMO?

Um autarca de Bugarach disse uma patetice sobre o fim do mundo; um jornalista local escreveu um fait divers; a France-Presse ampliou e os media mundiais inventaram que seria aquele o único local a salvar-se do fim do mundo, relacionando com um calendário da (essa sim) extinta civilização maia, que outros mentirosos transformaram em "previsão". Na aldeia francesa de 200 habitantes, aterraram na sexta-feira 250 jornalistas de todo o mundo, em directos do nada absoluto sobre um não-evento a partir de mentiras. Que haja quem acredite ou queira acreditar em mentiras, tudo bem. Mas que o jornalismo, sabendo da falsidade, as use para fazer notícias-espectáculo, eis uma degradação voluntária da nobre profissão de informar.

JÁ AGORA

SERÁ ISTO GANHAR NA SECRETARIA?

Milagre! A medição da GfK multiplica espectadores. Exemplo: as telenovelas da TVI têm entre mais 6% e 22% nas contas da GfK do que nas da Markdata Audimetria. Mas quem mais beneficia é a SIC, que por acaso preside à CAEM, a entidade que contratou a GfK. Na audimetria da GfK, as novelas da SIC têm entre mais 15% e mais 42% (!!!) de espectadores do que na da Marktest.

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Adeus, Jogos ‘Wokelímpicos’

Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.

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