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Tiago Rebelo

Tiago Rebelo

Escritor

Horas extraordinárias

26 de outubro de 2014 às 00:30

Rodeia-o um silêncio a que é insensível porque está concentrado no que faz, de olhos postos no monitor e dedos lestos a teclarem de memória palavras que vão formando frases. Mas o toque do telemóvel em cima da mesa desperta-o para outra realidade, a da sua vida privada.

Sabe que é a mulher antes mesmo de olhar para o aparelho. Em tempos, dedicou-lhe um toque único que a identifica instantaneamente quando lhe telefona. Nunca alterou o toque dela, por isso reconhece-o logo. Olha para o relógio antes de atender: quase dez horas. O tempo passou sem se dar conta. Faz uma careta de comiseração consigo mesmo, ela deve estar chateada, pensa, antes de atender.

Ela pergunta-lhe porque não vai para casa; ele responde-lhe que está a acabar um trabalho que não pode ficar para amanhã mas vai sair daí a pouco; ela informa--o que se vai deitar sem esperar por ele. De qualquer modo, afirma, já jantou e passou o serão sozinha. Diz isto num tom de censura e desliga.

Pousa o telemóvel na mesa, pensativo. De repente perdeu o interesse em acabar o trabalho que, de resto, não é assim tão urgente que o obrigue a fazer horas extraordinárias. Ele, simplesmente, entusiasmou-se e continuou agarrado ao computador.

Observa em redor o departamento vazio, com as secretárias dos seus colegas abandonadas. Foram todos para casa, pensa, para as suas vidas fora daqui. Pensa na mulher e reconhece que ela tem razão em estar chateada. Então porque sentiu ele uma irritação depois de desligar? Porque ela arranja sempre um motivo para o censurar e para ficar chateada, é essa a razão do desconforto dele. E a que se deve esse comportamento recorrente dela? Ele supõe que a uma necessidade de atrair a sua atenção, de o subjugar para a apaziguar. Mas também supõe que é assim que uma relação se vai desgastando até se tornar insuportável.

Deixa escapar um longo suspiro, a sentir-se mentalmente cansado. Ama-a, sempre a amou, mas tem a sensação de que hoje em dia a vida de casado se tornou num conflito permanente. Ela nunca está feliz, queixa-se de tudo e de nada, como se viver com ele seja um imenso peso que tem de suportar. Faça ele o que fizer, nunca escapa ao comentário ácido, à crítica severa, àquele olhar desiludido. É por isso que ultimamente fica a trabalhar até muito depois de todos os colegas terem saído.

Desliga o computador, levanta--se e veste o casaco a pensar aliviado que ela estará a dormir quando chegar a casa e não poderá  criticá-lo,  a  não  ser  em sonhos.

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