Havia um certo deslumbramento familiar sempre que se ultrapassava a muralha invisível de Fuentes de Oñoro ou de Tuy para entrar no grande desconhecido – e o grande desconhecido eram aquelas paisagens diabólicas a que se tinha acesso depois de preencher os papéis diante de guardas civis de tricórnio, soturnos e bigodudos que ignoravam, com severidade, que existia um país vizinho. O velho Doutor Homem, meu pai, que durante anos visitou o Dr. Cunha Leal no seu exílio da Corunha (facto a que a Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, atribuía razões ocultas – como comer ostras, comprar charutos canarinos e visitar mulheres), lembrava-se sempre de El Ferrol, aliás El Ferrol del Caudillo, para associar à cidade galega a genealogia política do Generalíssimo. Ele não gostava do Generalíssimo (mas gostava de El Ferrol, uma cidade que parecia ter sido traçada por marinheiros formados em geometria e matemática) como não gostava do dr. Salazar, o que várias vezes se apresentou ser um problema para a família que, impedida de apreciar os ditadores ibéricos, se encontrava a braços com o trabalho infernal de não pactuar com o bolchevismo ou com a devassidão – coisas que, para a Tia Benedita, era as duas faces da mesma moeda.
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Não gostava do Generalíssimo como não gostava do dr. Salazar, o que várias vezes se apresentou ser um problema para a família
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