page view
António Sousa Homem

António Sousa Homem

Respirar, ou a arte de ficar em Moledo

05 de abril de 2026 às 00:30

Havia um certo deslumbramento familiar sempre que se ultrapassava a muralha invisível de Fuentes de Oñoro ou de Tuy para entrar no grande desconhecido – e o grande desconhecido eram aquelas paisagens diabólicas a que se tinha acesso depois de preencher os papéis diante de guardas civis de tricórnio, soturnos e bigodudos que ignoravam, com severidade, que existia um país vizinho. O velho Doutor Homem, meu pai, que durante anos visitou o Dr. Cunha Leal no seu exílio da Corunha (facto a que a Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, atribuía razões ocultas – como comer ostras, comprar charutos canarinos e visitar mulheres), lembrava-se sempre de El Ferrol, aliás El Ferrol del Caudillo, para associar à cidade galega a genealogia política do Generalíssimo. Ele não gostava do Generalíssimo (mas gostava de El Ferrol, uma cidade que parecia ter sido traçada por marinheiros formados em geometria e matemática) como não gostava do dr. Salazar, o que várias vezes se apresentou ser um problema para a família que, impedida de apreciar os ditadores ibéricos, se encontrava a braços com o trabalho infernal de não pactuar com o bolchevismo ou com a devassidão – coisas que, para a Tia Benedita, era as duas faces da mesma moeda.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

O Correio da Manhã para quem quer MAIS

Icon sem limites

Sem
Limites

Icon Sem pop ups

Sem
POP-UPS

icon ofertas e descontos

Ofertas e
Descontos

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8