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Não há nada mais irritante do que o puritanismo. Quase sempre se evidencia como expressão hipócrita de quem exige aos outros aquilo que não faz, ou, na versão evangélica, que vê poeiras nos olhos dos outros, ignorando traves nos seus. Cuidando das aparências, vivendo mais de palavras do que de (bons) exemplos, os seus cultores cumprem um certo papel policial na nossa sociedade. Mas não se julgue que estes polícias dos comportamentos são os mesmos da época vitoriana.

Encontramo-los nos mais inesperados locais, sobre novos temas e, atrevo-me a dizer, que se procurarmos bem encontraremos alguns traços deste puritanismo em cada um de nós.

Uma destas evidências do puritanismo dos nossos tempos é exercido relativamente aos políticos. Alvos da nossa desconfiança militante, deles exigimos comportamentos tão irrepreensíveis e tão exemplares que nem os santos caberiam nessa nossa grelha de exigência. Como herança negra da cultura do jornal ‘O Independente’ ficou em alguns media portugueses – e em todos nós, como seus consumidores – uma permanente tentação puritana de escrutínio.

Ministros caíram, por exemplo, por haver dúvidas sobre se haviam cumprido rigorosamente todas as suas obrigações fiscais. Gostamos de ter uma ASAE dos políticos, em que os principais fiscais são alguns jornalistas. Mas é isso honesto? Todos nós cumprimos rigorosamente as nossas obrigações fiscais? Pedimos sempre factura quando fazemos uma obra em casa, pagando o devido IVA? Declaramos tudo o que temos a declarar?

Esta tendência puritana, que não é exclusivo nacional, tem vindo a alargar-se nos âmbitos que alcança. Já não é só os impostos, mas também a carreira académica, as relações pessoais ou os interesses de cada um. Por exemplo, aceitaríamos divulgar publicamente, cada ano, os nossos rendimentos, o saldo da nossa conta bancária, os imóveis, acções ou viaturas que possuímos? Não? Ora, exigimos isso, por lei, aos nossos políticos. Note-se que esta declaração fica disponível não só para o Tribunal Constitucional, qualquer cidadão pode consultar, divulgar e opinar sobre essa declaração de rendimentos.

Já vimos artigos de jornais elaborando, a partir dos dados dessas declarações, sobre a inteligência dos investimentos em bolsa de cada ministro. É isto razoável?

Não se advoga, naturalmente, a fuga aos impostos ou o não cumprimento das leis. Todos somos chamados a respeitar as nossas obrigações. O que se defende, contudo, é que não se seja hipócrita no que se exige a um político. Sobretudo pelo nosso próprio interesse. Várias figuras notáveis da sociedade portuguesa que poderiam dar um excelente contributo ao bem comum, através da política, quando a isso são instadas pensam duas vezes.

E por causa do nosso puritanismo, dizem que não. Se assim continuarmos os que serão elegíveis para funções públicas contar-se-ão pelos dedos de uma mão. E talvez nem seja preciso os dedos todos...

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