Tribunal de Contas responde ao Governo e diz que "não toma decisões políticas e não se substitui ao decisor político"

Ministro da Reforma do Estado tinha criticado atuação do TC, que acusou de se ""imiscuir em funções" que não são as suas.

03 de março de 2026 às 09:20
A presidente do Tribunal de Contas, Filipa Urbano Calvão Foto: José Coelho/Lusa_EPA
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A presidente do Tribunal de Contas considera que a discussão sobre a reforma do visto prévio está inquinada e, em resposta às críticas do Governo, afirma que a instituição não toma decisões políticas, nem se substitui ao decisor político.

Em entrevista à Lusa em reação a declarações recentes do ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, a presidente do Tribunal de Contas (TdC), Filipa Urbano Calvão, esclarece que a fiscalização exercida pelo tribunal -- no controlo prévio, concomitante e sucessivo -- é feita dentro dos poderes que a Constituição lhe confere, não havendo "qualquer interferência com a decisão política".

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"O tribunal não toma decisões políticas e não se substitui ao decisor político", afirma, acrescentando que a atividade do TdC "não constitui qualquer entrave nem ao desenvolvimento económico, nem ao investimento público".

A posição surge depois de, na semana passada, Gonçalo Matias ter acusado o órgão supremo de fiscalização da legalidade das despesas públicas de se "imiscuir em funções que são administrativas e políticas".

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Em dois momentos distintos, o ministro criticou a atuação do TdC, dizendo, em 25 de fevereiro, que a instituição "exerce uma função que não é própria", e acusando-a, em 27 de fevereiro, de querer legislar e governar numa "violação da separação de poderes".

O Governo quer rever a Lei de Organização do Tribunal de Contas, o Código de Procedimento Administrativo e o Código de Contratos Públicos, para alterar as regras de aplicação do visto prévio.

Para a presidente do TdC, o debate está "a ficar inquinado por alguns equívocos que precisam de ser clarificados", seja sobre o princípio da separação de poderes, seja quanto à "distinção entre o que é decisão política e o que é decisão administrativa".

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Filipa Urbano Calvão recusa liminarmente a acusação de que o tribunal viole a separação de poderes, lembrando que, de acordo com a Constituição, quem fiscaliza a gestão financeira pública é um órgão externo independente do poder político.

Relativamente ao último ponto, afirma existir "uma grande confusão" sobre os conceitos em causa. Pretendendo esclarecê-los, dá como exemplo o caso da construção de um aeroporto ou de uma ponte para clarificar que a decisão política corresponde à decisão de construir a infraestrutura e determinar a verba, e que o resto do procedimento corresponde à decisão administrativa.

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"O que o Tribunal vai fazer é fiscalizar essas regras que têm relevância financeira para garantir que a despesa é realizada em conformidade com a lei. Decisão política é uma coisa, decisão administrativa é outra", explica.

Urbano Calvão sublinha ainda que o Tribunal "está aberto a uma revisão da lei" e vinca que repensar o modelo de controlo da gestão financeira implica ter como ponto de partida a Constituição.

"Noutros pontos da Europa esse modelo de fiscalização prévia já foi substituído por uma fiscalização sucessiva e por uma maior responsabilização dos gestores públicos. Mas a questão é que quando se elimina um controlo prévio, seja judicial, seja administrativo, [essa ausência] tem que ser compensada por um reforço daquilo que, na expressão inglesa, se chama 'accountability'".

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Para Filipa Urbano Calvão, isso implica uma reestruturação "da própria administração pública, que foi o que se fez noutros países, por exemplo, na Bélgica".

Aí, a fiscalização prévia só foi abolida depois de "se conseguiu reestruturar a administração pública e reforçar os sistemas de controlo interno dentro de cada organismo da administração pública", refere.

Questionada se a administração pública portuguesa está numa fase de maturidade suficiente para se eliminar o visto prévio, Filipa Urbano Calvão entende que "não está", referindo que há décadas "tem vindo a ser desfalcada em termos de recursos".

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