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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

NASCIDOS A 25 DE ABRIL DE 74

Nasceram há exactamente 30 anos, tal como a democracia. Mas enquanto eles cresceram, estudaram, empregaram-se e alguns tiveram filhos, ela "entreteve-se em comemorações" e não atingiu a maturidade que a sua idade já exigia. É o que pensam alguns dos que nasceram no dia 25 de Abril de 1974.

11 de abril de 2004 às 00:00

Os "revolucionários", "Marias da Liberdade" ou "Chicos dos Cravos" - como insistiam em chamar-lhes na escola ou em casa devido ao dia do nascimento - foram os primeiros portugueses a crescer em democracia.

Nasceram, aliás, com a democracia, ao som dos tiros no Largo do Carmo, e da convulsão nas ruas, rodeados de cravos em vez de rosas e de uma alegria mais exaltada do que a maioria dos recém-nascidos.

Porque nunca viveram a ditadura, porque "não a sentiram na pele", têm uma posição menos politizada do que os pais e os avós, uma atitude frequentemente confundida com indiferença e em tempos apelidada de "rasca". Mas os "irmãos gémeos" da Revolução de Abril são hoje jovens adultos de 30 anos e esses apelidos nem sempre se confirmam.

O guitarrista Joel Xavier, um dos primeiros "filhos da Madrugada", nasceu na tarde do dia 25. Hoje um músico reconhecido internacionalmente, premiado nos EUA e com seis discos gravados, Joel tem uma opinião clara e crítica quanto ao estado da democracia.

"Passámos os últimos 30 anos a comemorar o 25 de Abril, o que significa que muito pouco se fez entretanto", diz o guitarrista.

Ricardo Conceição, jornalista na Rádio Renascença, considera que os ideais da revolução não se concretizaram, mas agradece a liberdade conquistada no dia do seu nascimento, que lhe permite exercer a profissão que escolheu sem medo de perseguições ou da censura.

Crítico do actual estado da democracia, que atribui a uma “cultura pós-revolução”, é também Francisco Marta, cuja festa de aniversário se juntava sempre à do 25 de Abril, incluindo, até meados dos anos 80, uma inevitável passagem pelas paradas militares em Coimbra.

Já para Carla Gonçalves, licenciada em Gestão, aqueles que nasceram no 25 de Abril são revolucionários sobretudo na forma como encaram a vida e como lutam pelos seus objectivos e ideais.

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