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António José Seguro apontou que a primeira mudança de que Portugal precisa é no sentido da "construção de uma cultura de confiança".
O Presidente da República defendeu esta quarta-feira que o país precisa de mudanças de mentalidade que promovam a confiança, método e planeamento e ponham fim à "cultura de desorganização", com demasiado improviso, e ao "jogo de culpas" na política.
"Importa mudar algo em nós, na nossa maneira de fazer as coisas, para mudarmos o nosso país", declarou António José Seguro, que discursava numa iniciativa comemorativa do 10.º aniversário do jornal Eco, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
"Confiar, focar na solução, organizar. Três mudanças", resumiu.
Na sua intervenção, o chefe de Estado abordou, com preocupação, a situação da comunicação social em Portugal, perante o desenvolvimento das redes sociais e da inteligência artificial (IA), e disse que "o país tem de decidir o que quer fazer para ter um jornalismo livre e plural".
Mais à frente, ao falar da cultura política em Portugal e criticar a constante procura de culpados, António José Seguro considerou que também "os meios de comunicação têm aqui uma responsabilidade a que não se podem esquivar".
"Não porque sejam os culpados -- não o são, quero dizer isso com muita clareza --, mas porque o modelo de cobertura que privilegia o conflito sobre o conteúdo, a troca de acusações sobre a análise, amplifica exatamente a dinâmica daquilo que nos paralisa", apontou.
Segundo o Presidente da República, a primeira mudança de que Portugal precisa é no sentido da "construção de uma cultura de confiança", que referiu ser um fator em falta na sociedade portuguesa, por comparação com outros países, e fundamental para haver parcerias que façam a economia portuguesa ganhar escala e competitividade.
"Isto não se constrói com uma lei. Constrói-se com exemplos, com lideranças que cumprem o que prometem, com instituições que funcionam de forma consistente e que por isso merecem a confiança que pedem. É lento, é difícil, mas é a primeira mudança de que nós precisamos", sustentou.
A "segunda mudança" a que apelou foi o fim da "cultura política" de constante procura de culpados, que atrasa a resolução de problemas.
"Este jogo de culpas é um desperdício monumental de energia, de tempo e de recursos", criticou.
Neste contexto, quanto ao papel do jornalismo, António José Seguro comentou que "pode ser parte do problema", ou "pode ser, como o Eco tantas vezes é, parte da solução", é uma escolha "feita todos os dias por quem tem que a fazer".
"A terceira mudança é mais transversal, é uma cultura de organização. Portugal tem uma capacidade extraordinária de improviso, genuína, admirável, uma expressão de solidariedade enorme, profunda, que vem do coração, que já nos salvou em momentos muito difíceis. Mas o improviso tem um limite preciso: só reduz o caos e atenua a perda", prosseguiu.
No seu entender, prevalece em Portugal "uma cultura de desorganização e desarticulação que nenhum improviso compensa, e isso tem um custo", que são os "projetos que não acontecem, investimentos que não chegam, talentos que partem porque não encontram aqui a previsibilidade do que precisam para construir".
"Os futuros constroem-se com método, com planeamento, com instituições que funcionam de forma consistente, independentemente de quem está na sua liderança", contrapôs.
António José Seguro comentou que fazer estas "três mudanças" não é fácil, mas é possível. "O país que queremos não nos vai acontecer, temos de o fazer acontecer. Com o melhor de cada um de nós, com o melhor de todos nós", apelou.
Sobre a situação da comunicação social, "um pilar das democracias", considerou que "está sob pressão como nunca esteve" no seu tempo de vida, perante as redes sociais e respetivos algoritmos, "que não distinguem verdade de mentira" e "privilegiam sistematicamente a emoção", e a IA capaz de "simular vozes, de fabricar imagens".
Para o chefe de Estado, "a resposta não pode ser baixar o padrão, tem de ser elevar a ambição", e "o jornalismo que sobreviver a esta transformação terá de ser mais humano, e não menos humano".
"Mais lento, quando a velocidade distorce. Mais contextualizado, quando a fragmentação desorienta. Mais capaz de dar sentido ao que acontece e não apenas de reportar o que aconteceu", completou.
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