Lembro-me perfeitamente de cá ver entrar a princesa Diana e o príncipe Carlos.” A recordação partilhada ao CM por Manuel Ferreira, recepcionista há 43 anos na residência oficial do primeiro-ministro, tem um significado diferente no dia em que se comemora mais um aniversário sobre o 25 de Abril: é que ontem o palacete de S. Bento esteve aberto ao público para ser visitado.
O próprio José Sócrates desceu a escadaria principal, saiu ao jardim de cravo ao peito e deu autógrafos às pessoas que o rodearam.
“Gostava de ver o resto do palacete”, diz ao CM Maria Luísa, 70 anos. “As mulheres são muito curiosas: apreciamos imenso as decorações e estabelecemos logo comparações.” Por isso, a visitante lamenta não ter podido ver os quartos. “Chego a casa e mudo já a decoração.” Acontece que os espaços abertos ao público já repetiam as imagens dos noticiários. “Reconheci os cantos e recantos.”
Dentro do palacete, à entrada, estão expostas as fotos dos ‘ex-moradores’ da residência. “Falta a de Salazar e Marcelo Caetano; só têm do pós-25 de Abril”, repara Abílio Costa, 60 anos. Ao lado, a sala de espera, onde se dão também as conferências de Imprensa, e que apenas podia ser vista junto à ombreira da porta. Isto porque ninguém podia entrar no interior destes espaços. Contígua à anterior, na sala de audiências Sócrates recebe os seus homólogos estrangeiros. A última a poder ser visitada naquele piso era a sala de jantar. E, no piso inferior, só se podia ver a sala onde, raras vezes, se realiza o Conselho de Ministros.
José Sócrates desceu do seu gabinete e misturou-se com os visitantes. “São muito bem vindos” – disse, já no jardim, acrescentando: “Está um bonito dia para se comemorar a democracia e a liberdade.” O primeiro-ministro distribuiu autógrafos, entre cumprimentos e sorrisos. Das centenas de curiosos, Jorge Azinheiro, 45 anos, foi um dos felicitados: “Não estava à espera.” E frisa que “os mais novos têm de ter a consciência de que estas funções são efémeras: os políticos não são sacrilegiados.”
Que o diga o recepcionista da residência oficial, Manuel Ferreira, que recorda alguns dos chefes de Governo com amizade, mas sem afinidade política. “Quem não gosta do eng. Guterres não gosta de ninguém”, elogia. E a admiração estende-se também ao actual Presidente da República: “Só quem não trabalhou com o professor Cavaco Silva é que não gosta daquela família. É adorável.” Já com 68 anos, Ferreira é o mais antigo daquela residência que se abriu à curiosidade dos portugueses mas que, adianta, “é um palacete modesto, mesmo”.
PORMENORES DE UMA VISITA EM TRÊS HORAS
- Em dia de calor, no meio do “admirável” jardim de São Bento, muitos visitantes não quiseram deixar de aproveitar uns minutos de descanso, ao sol, junto à piscina. Os mais pequenos aproveitaram também para deitar uma ‘mãozinha’ à água.
- S. Bento abriu à curiosidade do público cinco das suas salas. Acontece que os visitantes não podiam entrar, nem experimentar a mobília, porque só era possível espreitar o interior a partir da ombreira da porta. Contudo, os comentários eram positivos.
- O tempo de espera para os visitantes entrarem na Residência Oficial do primeiro-ministro rondava, ontem, às 15h20, os 15 minutos. É que centenas de pessoas, portugueses e estrangeiros, não quiseram deixar de lá ir.
TRADIÇÃO DE GUTERRES
Desde o primeiro Governo de António Guterres, em 1996, que a Residência Oficial do primeiro-ministro é aberta ao público no dia em que se comemora a revolução dos cravos. José Sócrates, à semelhança do ano passado, seguiu a tradição.
ANIMAÇÃO DO CHAPITÔ
A Escola do Chapitô, em Lisboa, animou a cerimónia de ontem. O tema das festividades era a ‘Protecção à Democracia’.
MORADA DE SANTANA
Santana Lopes, ex-primeiro-ministro do Governo de coligação entre o PSD e o CDS-PP, foi o último morador do Palacete de S. Bento. Isto porque, o seu sucessor, José Sócrates, optou por não habitar a residência oficial. Só a usa para trabalho e para receber os seus homólogos.
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