Advogado de Carlos Santos Silva volta a ser ouvido em tribunal no âmbito da Operação Marquês
Depoimento tinha sido suspenso o ano passado por questões de sigilo profissional.
O advogado Gonçalo Trindade Ferreira, arguido na Operação Marquês, voltou esta terça-feira ao banco dos réus para dar continuidade ao depoimento que tinha sido suspenso o ano passado por questões de sigilo profissional.
Na altura, Gonçalo Trindade Ferreira, acusado de três crimes de branqueamento de capitais e um de falsificação de documentos, prestou declarações sobre as práticas como advogado de Carlos Santos Silva, também arguido neste processo.
Em relação às casas do Cacém, o advogado explicou, esta terça-feira, que Carlos Santos Silva pretendia adquirir dois imóveis no valor de 100 mil e 80 mil euros. "Fiz procuração para mim e procedi a esse registo de compra e venda". Gonçalo Trindade Ferreira refere que quando a escritura foi feita, Santos Silva já tinha pagado o imóvel: "o valor foi acordado entre comprador e vendedor e feito diretamente entre ambos. Limitei-me a fazer o registo”. O advogado garante que não conhecia Maria Adelaide Monteiro, mãe de José Sócrates.
O pagamento do imóvel terá saído da conta pessoal de Santos Silva que passou um cheque que foi depositado pelo advogado. No seguimento destas movimentações, Gonçalo Trindade Ferreira admite ter entregado um envelope com 10 mil euros a João perna a pedido de Santos Silva.
Relativamente à compra do imóvel na capital francesa, Carlos Santos Silva terá pedido ao advogado para o acompanhar por ter facilidade em escrever e falar bem francês: "Acompanhei Santos Silva como advogado e seria também para representá-lo". Gonçalo Trindade Ferreira refere que o valor da compra foi transferida para o notário que ficou responsável de pagar ao vendedor.
"O engenheiro [Carlos Santos Silva] quis arrendar a casa ao engenheiro José Sócrates. Eu soube quem era depois do contrato estar feito. Fiz a minuto do contrato. Recordo-me do contrato de arrendamento, mas não me recordo das datas. Era um imóvel antigo e que precisava de algumas obras", disse. "O contrato foi feito em 2014, mas com retroativos, correspondia a 2013. Só soube naquele momento que o contrato seria feito naqueles moldes para aquela pessoa. não associei nada, nem questionei nem tinha de o fazer", acrescentou.
"O contrato solicitado era normalíssimo para mim. Eu era advogado das empresas de Santos Silva e de Santos Silva [o engenheiro]. Recebia uma avença das empresas e tratava de todos os assuntos. Era miúdo, estava deslumbrado também", continua. “Em 2009, 2010, fui trabalhar com Santos Silva. Era uma pessoa que era conhecida do meu primo direito, quando me faz este convite… sou o único interlocutor que ali está, óbvio que me sinto lisonjeado”.
Gonçalo Trindade indica que a finalização das obras estava prevista para março de 2024 e que o preço das mesmas foi "negociado pelo engenheiro". "Fiquei depois como interlocutor direto do processo Quando a obra estava quase a ser concluída, houve uma visita de um amigo argelino do engenheiro”
Sobre a abertura de uma conta bancária em Paris, meses depois em nome de Gonçalo Trindade Ferreira, o advogado afirma: "o engenheiro pediu para eu gerir. Era uma pessoa ocupada. Mesmo nas empresas, pedia a pessoas para o ajudar nestas situações. A conta servia apenas para pagar as despesas. Quis ser solicito. Quis ser prestável. Não vi mal nenhum. Achei que estava a ajudar.
Relativamente à conta no BCP, aberta em 2004, o advogado explicou que a "conta estava associada a um cofre. O tal cofre, que já tinha dito ao MP, que tinha uma quantia de 200 mil euros pertencentes ao engenheiro Carlos Santos Silva, que já foram devolvidos”. Gonçalo Trindade Ferreira esclareceu que a “conta serviu só para ter acesso ao cofre”.
“Este valor não foi entregue de uma vez só. Estávamos um bocadinho antes do colapso do BES…. Tínhamos muitos trabalhadores espalhados pela Argélia, Brasil… e o engenheiro falou comigo no sentido de guardar determinada quantia para o caso de precisar. O engenheiro estava sempre a viajar”, justificou, sublinhando: “Eu acho que houve 3, 4 idas ao cofre e foi só para colocar lá dinheiro, mais nada.”
Durante as obras, “Santos Silva pediu para eu arranjar mais dois apartamentos em Paris para uma pessoa. Quem ia para lá era a engenheira Sofia fava, na altura não sabia quem era”, acrescenta o advogado.
Sobre a ideia de criar um fundo de investimento imobiliário, em 2014, o arguido explicou: “Santos Silva veio falar comigo a dizer que tinha pensado fazer um fundo de investimento imobiliário. Não percebia como funcionava. Contactei um colega meu e ele explicou-me. Falei com o engenheiro. Acho que ele não ficou satisfeito e voltei a reunir uma segunda vez com outro colega.”
“Nessa reunião, o engenheiro já esteve comigo. Eles queriam 50 mil euros para despesas e ele disse que não fazia sentido”, prosseguiu Gonçalo Trindade Ferreira, acrescentando que o “engenheiro também me tinha dado um contacto do BPI” e que pretendia que o “fundo andasse entre 5 a 10 milhões". "Não sabia quais eram os imóveis, eu só conhecia alguns. Visitámos também vários imóveis em Londres.”
"Há 12 anos que sou perseguido como o arguido da operação marquês. Fiquei rotulado com a situação. Quando faz perguntas sobre datas, tento alienar na minha vida. Tive quatro dias detido com crianças em casa. Isto levou a um divórcio . Tenho a consciência de que se não estivesse naquele avião, hoje não estava aqui sentado. Hoje arrependo-me de estar naquele avião. Não por ter feito alguma coisa, eu não fiz nada”, diz o advogado.
À margem da sessão, falou também Filipe Batista, advogado de Sofia Fava, revelando que José Sócrates lhe pediu para ser o seu advogado.
Filipe Batista explicou que ainda não teve tempo de estudar o processo, mas mostrou-se disponível para defender José Sócrates, adiantando que, caso assuma formalmente a defesa do antigo Primeiro-Ministro, "há várias questões que exigem perguntas".
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