Ex-administrador diz que empréstimos ordenados por Ricardo Salgado delapidaram Tranquilidade
Em causa estão várias operações financeiras realizadas pela Tranquilidade no primeiro semestre de 2014.
Um antigo administrador da Tranquilidade disse, esta quarta-feira, em tribunal que a seguradora foi delapidada por financiamentos ao Grupo Espírito Santo (GES) ordenados em 2014 por Ricardo Salgado, mas ressalvou que a companhia "não ficou em perigo".
"Apesar desses empréstimos não pagos e que de facto delapidam o património da Tranquilidade, [...] a Tranquilidade não ficou em perigo. Não houve nada que tornasse a Tranquilidade incapaz de responder aos seus compromissos", afirmou Miguel Moreno, ouvido como testemunha no julgamento, em Lisboa, do processo principal do colapso do Banco Espírito Santo (BES) e do GES, no verão de 2014.
Em causa estão várias operações financeiras, incluindo a compra de títulos de dívida de sociedades do GES, realizadas pela Tranquilidade no primeiro semestre de 2014, e que, segundo o antigo administrador financeiro da seguradora, foram ordenadas por Ricardo Salgado, então presidente do BES, a instituição que à data detinha a seguradora.
Dos empréstimos de um valor global de mais de 150 milhões de euros, só um foi reembolsado.
"Foram instruções que foram dadas pelo acionista único, na pessoa do dr. Ricardo Salgado, e de que a Comissão Executiva não gostou, debateu durante meses, mas às quais não se opôs. E portanto as operações foram feitas", afirmou, esta quarta-feira, Miguel Moreno, acrescentando que quem confrontasse o banqueiro seria despedido.
Pelo menos algumas das ordens, precisou, foram antecedidas de um telefonema da então diretora do Departamento Financeiro, de Mercados e de Estudos do BES, Isabel Almeida, que apelidou de "porta-voz do dr. Ricardo Salgado para estes assuntos dos empréstimos".
Questionado pelo Ministério Público sobre o porquê do desconforto manifestado pela Comissão Executiva da Tranquilidade, o antigo administrador financeiro explicou que os empréstimos eram de "montante elevado" e não se enquadravam na "política de investimento" da companhia.
Ainda assim, salientou que, à data, os administradores consideraram que o financiamento, justificado por Ricardo Salgado com um aumento de capital do BES que iria acontecer em junho, era de "risco baixo".
"Nunca nos passou pela cabeça que [o BES/GES] estivesse à beira do colapso. Toda a gente via que o aumento de capital estava a ser montado e veio a ocorrer [em junho de 2014]: 1.050 milhões de euros. [O empréstimo] não nos deixava satisfeitos, mas tinha alguma sustentabilidade", sustentou.
Até porque, sublinhou, nos 10 anos anteriores nada semelhante tinha sido pedido à Tranquilidade pelo BES e Ricardo Salgado - em quem confiavam e que nunca pensaram que prejudicasse um ativo seu - assegurou sempre que a seguir ao aumento de capital tudo ficaria resolvido.
"Acho que genuinamente o Dr. Ricardo Salgado estava convencido de que os empréstimos seriam reembolsados após o aumento de capital", defendeu.
Em 2015, o Novo Banco, sucessor do BES após a falência, vendeu a Tranquilidade ao fundo norte-americano Apollo, que, por sua vez, a alienou em 2019 à italiana Generali.
O processo principal da queda do BES/GES conta atualmente com 18 arguidos, incluindo Ricardo Salgado, de 80 anos e doente de Alzheimer, e Isabel Almeida.
O Ministério Público estima que os atos alegadamente praticados entre 2009 e 2014 pelos ex-quadros do BES e de outras entidades do GES tenham causado prejuízos de 11,8 mil milhões de euros ao banco e ao grupo.
Em causa estão crimes de associação criminosa, corrupção no setor privada e burla qualificada, entre outros.
O julgamento decorre desde 15 de outubro de 2024 no Tribunal Central Criminal de Lisboa.
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