Quando chegou a Joanesburgo, na Primavera de 1996, a média de funerais de portugueses assassinados era de um por semana. “Cresceu em mim um horror pela criminalidade que me levava a perguntar quando chegaria a minha vez”, recorda o padre Carlos Gabriel.
Desde então, divide-se entre a assistência espiritual e a luta pelo direito à vida na África do Sul. É o líder do Fórum Português Contra o Crime (FPCC), uma obra incómoda para o poder político e aparentemente interminável. “A violência inata e o sofrimento estão no cerne da questão humana”, reconhece.
Este ano já morreram quatro portugueses vítimas de homicídio em Joanesburgo e a contagem de cadáveres, desde a década de 90, supera os 380. Todos eles, do passado ao presente, vão estar no coração de Carlos Gabriel quando hoje celebrar as bodas de prata do seu sacerdócio em Vila de Rei.
“O problema da criminalidade na África do Sul não está de forma alguma resolvido. É preciso uma mudança de mentalidades, Polícia bem treinada e vontade política”, recomenda o padre activista. Na cerimónia, esta manhã, está confirmada a presença de uma representante do governo regional da Madeira, de onde a maioria dos emigrantes é oriunda.
Depois da marcha contra a violência em Joanesburgo – organizada em Novembro de 2000 – e da criação do FPCC, logo a seguir, o número de portugueses assassinados na África do Sul caiu para menos de metade: de 34 em 2001 para 16 em 2005 e quatro no primeiro semestre deste ano. “A diminuição resulta de se protegerem e alterarem comportamentos, mais do que da acção da Polícia, que está de mãos atadas”, diz o missionário nascido em Vilar do Ruivo, Vila de Rei, há 50 anos.
EXEMPLO DE CORAGEM
Carlos Gabriel foi ordenado padre em 28 de Junho de 1981 numa cerimónia presidida por D. António Ferreira Gomes, à época responsável pela diocese do Porto.
“Admirava-o pelo seu passado, era um filósofo, um pensador”, refere. Tal como D. António enfrentou Salazar com coragem e inconformismo, o líder do FPCC não se curva perante diplomatas e políticos. “Para me receber, o que nem sequer ele vai fazer – nomeou dois assessores – foi preciso quase três anos de telefonemas, comunicados e artigos nos jornais. Nunca se preocupou”, disse sobre Jorge Sampaio em Março de 2005, acusando-o de ignorar o drama da comunidade portuguesa em Joanesburgo.
MUNDIAL ABENÇOA
Capelão da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, o padre insiste numa rotina dinâmica e corajosa. Na África do Sul, considerado por muitos o país mais violento do Mundo, morrem 18 mil pessoas por ano vítimas de crime. Carlos Gabriel não anda armado – “coloco-me nas mãos de Deus” – e nunca foi atacado.
Dentro de dias deixa Vila de Rei e volta para o bairro de Benoni, no leste de Joanesburgo, onde há muito por fazer: “O governo de lá não quer alterar a situação. A ministra da Segurança disse há dias que as pessoas que se queixam da criminalidade podiam continuar até se cansarem ou deixarem o país”. Um recado que o missionário português devolve. “Abandonar a África do Sul não está em cima da mesa.”
Na opinião do sacerdote, a organização em 2010 do Mundial de futebol será “uma bênção” para o país. “Vai minorar a falta de empregos e retirar das ruas muita gente que caso contrário se iria dedicar a roubar”, considera. “Depois, obriga o governo a uma atenção maior à questão da segurança e já se nota que eles andam aflitos”, refere Carlos Gabriel. Como em tudo, há um lado negativo e esse está reservado para os estrangeiros: “É muito provável que os adeptos venham a ser vítimas de assaltos.”
Carlos Manuel Farinha Gabriel nasceu há 50 anos em Vilar do Ruivo, Fundada, no concelho de Vila de Rei. Tem uma irmã. O pai era pedreiro e a mãe doméstica. Inspirado por um sacerdote missionário que vivia na aldeia, entrou para o seminário de Tomar aos dez anos. Foi ordenado padre em 1981 e faz parte dos Missionários da Boa Nova. Trabalhou na Zâmbia 12 anos e está desde 1996 na África do Sul, onde lidera o Fórum Português Contra o Crime. É capelão da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Benoni, Joanesburgo.
TRÊS HORAS SITIADO EM CASA POR BANDO DE ASSLTANTES
Logo após a ordenação, há 25 anos, o padre Carlos Gabriel tornou-se parte dos Missionários da Boa Nova. O primeiro país africano onde prestou serviço foi a Zâmbia. E também aí surgiram os primeiros contactos com a violência indiscriminada. “Em 1983 tentaram entrar na minha casa, pelo telhado. Não tinham armas de fogo, mas obrigaram-nos a resistir durante três horas, sitiados”, conta o sacerdote português. “Pegámos em ferramentas e conseguimos defender-nos”. Três anos mais tarde, a política económica do governo da Zâmbia iniciou uma série de distúrbios no bairro onde residia, na diocese de Ndola, em plena cintura do cobre. Houve manifestações em série e destruição de propriedade: ataques a estabelecimentos comerciais, transportes e serviços públicos. “Nunca estive em perigo, mas causou-me uma interrogação muito grande em relação ao presidente Kaonda. Foi um erro que levou à queda do país”, explica. Na Zâmbia esteve 12 anos, fazia assistência espiritual aos mineiros do cobre e foi ‘picado’ pela magia do continente. Quando regressou a Portugal, ficou apenas seis meses no Porto e logo agarrou uma vaga em Joanesburgo, onde, até agora, nunca sofreu ataques de qualquer espécie.
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