O marginal ‘Celé’, morto pela Polícia com 42 tiros, em Odivelas, jogou futebol nos infantis do Benfica onde acabou por ficar apenas alguns meses, até se descobrir que apresentara identidade falsa e que era um pouco mais velho, apurou o CM.
Foi mesmo nos ‘encarnados’ que ganhou a alcunha com que viria a ficar conhecido no mundo do crime, posta por colegas de uma equipa que deu craques como Maniche ou Bruno Basto. “O B.I dizia que se chamava Celestino e por isso passaram a tratá-lo por ‘Celé’ e a coisa pegou”, conta Arnaldo Teixeira, antigo treinador das camadas jovens do clube da Luz e que dirigiu Osvaldo Vaz, morto há duas semanas, nos infantis, em 1988.
Aquele que se tornou no homem mais temido pela Polícia na Grande Lisboa frequentou os treinos de captação, com amigos da Cova da Moura, Amadora, mas foi o único a ficar. E logo na equipa principal dos infantis, embora, sem que se soubesse, já tivesse idade de iniciado, 13 anos.
“Jogava como médio e a defesa-central. Era rijo, mas também metia bem a bola nas alas, com os dois pés. Tinha uma passada larga, a fazer lembrar outro jogador do Benfica, o Samuel. Talvez chegasse a uma segunda divisão”, comenta o seu antigo treinador, agora colaborador do Benfica, nas escolas de formação.
CARROS DANIFICADOS
A meio da época acabou expulso por se descobrir que usara identidade falsa, prática corrente entre oriundos das ex-colónias, fosse por imperar limite de estrangeiros ou para se passar por mais novo. “Ouvi um zunzuns sobre o ‘Celé’, confrontei-o no final de um treino e ele desapareceu como o fumo. O meu Austin 1300 e outros carros de treinadores apareceram todos riscados nessa noite...”
O ‘mister’ garante que, caso tivesse previsto o percurso de vida que ‘Celestino’ tomaria poucos anos depois, teria ido ao seu bairro: “Temos ajudado dezenas de miúdos a ‘sair’ da droga e da marginalidade.”
Só que os que apenas conheceram ‘Celé’ na infância estavam longe de imaginar que se transformaria no criminoso receado por outros marginais e polícias, com um rol impressionante de acusações e condenações, dos homicídios aos roubos, passando pelo tráfico e extorsão, a par de uma habilidade quase inexplicável para se evadir da prisão. “Já havia algumas coisas”, corrige Arnaldo Teixeira num esforço de memória. “Andava sempre com quatro ou cinco amigos esquisitos, que não conseguiram jogar no Benfica e ficavam a rondar nos treinos. Até os tínhamos debaixo de olho, por causa das bolas.”
E mesmo a correcção no trato de treinadores e colegas mudava, por vezes, com a rapidez com que, anos depois, fugia à Polícia. “Quando sofria uma entrada mais dura, era substituído ou, pior ainda, se não fosse convocado, fitava as pessoas cá de uma maneira. A parte branca dos olhos ficava vermelha e quase deitava faíscas. A gente até dizia: ‘Eh, pá, parece que nos queres matar’”, refere. “Mas nunca pensei...”
Maniche: Estou muito surpreendido
Em estágio para o jogo do último sábado com o Vitória de Setúbal, Maniche mostrou-se "muito surpreendido" ao saber que 'Celé' tinha morrido num cerco policial, como epílogo de um percurso de grande violência criminal que o médio portista estava longe de atribuir ao seu antigo colega nos infantis do Benfica.
"Ele esteve pouco tempo no clube. Nunca mais soube dele. E desconhecia completamente que ele tinha morrido. Então dessa maneira… Estamos tão envolvidos no trabalho e aqui no Norte…", referiu-nos como quem se justifica de uma desatenção imperdoável.
A imagem que o '18' dos ‘azuis-e-brancos’ retém de Osvaldo Vaz - o verdadeiro nome do marginal que se tornou no homem mais procurado pela Polícia na Grande Lisboa - é a de um "bom rapaz, calado, nada agressivo", pois se "nem era dos que diziam 'se não me passas a bola lá fora vais ver'". Maniche faz questão de acrescentar: "Deixava-se as coisas à vontade, no balneário, os relógios, e nunca desapareceu nada."
'Celé' era médio e tinha jeito. "Tudo indicava que, se continuasse, viria a ser um bom jogador. É a ideia que guardo dele. Não me lembro assim de grandes pormenores", atirou-nos o craque do FC Porto, hoje com motivos especiais para estar feliz - dois dias após fazer a assistência para o golo da vitória em Setúbal, completa 25 anos.
Bruno Basto: Tinha qualidades de futebolista
“O ‘Celé’ tinha qualidades de futebolista: força e alguma técnica. Se não fosse assim também não podia ter estado no Benfica, onde muitos miúdos tentam ficar e não conseguem”, comentou ao CM Bruno Basto, contactado em França.
Ainda assim, o lateral-esquerdo do Bordéus não arrisca o prognóstico: “É difícil avaliar, tão cedo, se ele viria a tornar-se num grande jogador de futebol.”
O defesa tomou pela televisão conhecimento da morte violenta de ‘Celé’, mas não ficou convencido de que era o ex-colega dos infantis do Benfica. “O nome ficou-me na cabeça, depois vi uma fotografia, penso que no Correio da Manhã, e tirei as dúvidas. A cara não mudou. É incrível", desabafou.
O jogador lembra-se perfeitamente de ‘Celé’, até porque frequentaram a mesma escola na Damaia. Não guarda razões de queixa, pois tratava-se de "uma pessoa calma" e que "nunca levantou problemas".
De França acompanhou o fim violento de 'Celé', morto pela Polícia aos primeiros minutos de 29 de Outubro num bairro residencial de Odivelas, algo que o deixou surpreendido: "Honestamente, nunca pensei que ele pudesse chegar a isso."
Bruno Basto e Maniche faziam parte dos infantis ‘B’, que disputavam o campeonato distrital, enquanto ‘Celé’ já estava nos ‘A’, a equipa principal, integrada nos nacionais.
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