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DEZ MESES DE CATETER NO CORAÇÃO

Carlos Luhmann Neves, de 61 anos, mal se recorda do que lhe aconteceu. Sabe apenas que quando saiu do Hospital do Desterro/Capuchos, em Lisboa, onde esteve internado seis semanas depois de ter sofrido um enfarte do miocárdio, na sequência de uma pneumonia, sentia "picadas terríveis" e "fortes dores" no peito. Dez meses após o internamento hospitalar, descobriu o que lhe provocava as dores quando fez um exame rotineiro de pneumologia no Hospital S. Bernardo, em Setúbal.

03 de dezembro de 2003 às 00:00

Um cateter (sonda que se introduz numa veia ou artéria para administração de substâncias medicamentosas), com cerca de dez centímetros de comprimento, estava alojado no aurículo direito do coração.

Este caso insólito teve início no dia 1 de Janeiro deste ano. Carlos Neves estava na sua casa em Porto Côvo, concelho de Sines, quando sofreu o enfarte. Foi imediatamente transportado para o Hospital de Santiago do Cacém e daí evacuado de helicóptero para o Hospital de S. Bernardo, em Setúbal. A gravidade do seu estado de saúde fez com que fosse transferido para o Hospital do Desterro/Capuchos onde permaneceu alguns dias em coma.

"Estava bastante mal e não me recordo do que aconteceu. Os médicos e as pessoas que me assistiram não acreditavam que sobrevivesse", contou Carlos Neves, acrescentando que "talvez por essa razão, um dos profissionais de saúde não teve o cuidado que devia ao retirar ou substituir o cateter no ombro, junto ao pescoço. Este ter-se-á partido e entrou na corrente sanguínea e depois percorrido o caminho até ao aurículo direito do coração".

"Quem o fez teve a noção do que aconteceu, mas não contou nada. Deixou o cateter porque pensava que não vivesse por muito mais tempo", sublinha o paciente. Mesmo assim, Carlos Neves tem noção de que saiu com vida do Hospital dos Capuchos "graças ao profissionalismo dos médicos".

No final de Fevereiro, começou a apresentar algumas melhoras e foi transferido para o Hospital de Setúbal e dali para o de Santiago do Cacém. Mais tarde acabou por ir para casa, mas continuava a sentir algum incómodo no peito. "Por vezes as dores eram muitas e tinha picadas no coração. Fui às consultas do médico de família, mas não me diagnosticou o problema. No dia 13 de Novembro fui fazer um exame de pneumologia a Setúbal e quando saí de casa estava novamente com dores. Parei várias vezes no caminho, estava com medo que algo acontecesse", lembra. Chegou ao Hospital de Setúbal e foi logo observado. Após a realização de uma ecocardiografia revelou um dispositivo com cerca de 10 centímetros de comprimento junto ao coração.

"Fiquei logo internado. Este caso pedia urgência devido ao perigo que corria, a qualquer instante o cateter podia perfurar o coração. Por indecisão da administração do Hospital de Setúbal só o tiraram passados 10 dias. O processo foi delicado mas foi possível retirá-lo sem que fosse necessário ser operado", concluiu.

CASO VAI PARA OS TRIBUNAIS

O cateter foi retirado no passado dia 28 de Novembro. Depois de anestesiado, foi-lhe introduzido um pequeno tubo numa veia da virilha do lado direito até ao aurículo do coração. Após várias insistências o objecto acabou por sair. As dores já passaram, mas Carlos Neves continua revoltado com o que lhe aconteceu. "Sei que as pessoas do Hospital do Desterro/Capuchos sabem o que se passou. Alguns até sabem quem foi", referiu, acrescentando, em seguida, que em breve irá falar com um advogado para expor este caso nos tribunais.

Por sua vez, o director do referido hospital, Pereira Alves, afirmou que "desconhece completamente" o caso porque não recebeu qualquer reclamação. Este responsável admite, no entanto, a possibilidade de abrir um processo de averiguações caso receba alguma queixa.

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