Comandante da lancha ‘Sirius’ à data da invasão de Goa pelas tropas da União Indiana, Marques da Silva, então com 25 anos, cumpriu uma ordem que lhe deixou marcas: afundou o seu próprio navio com recurso à danificação das hélices. “Ainda hoje ouço o barulho do embate da lancha nas rochas”, recorda, à distância de mais de quatro décadas, quem, tal como a sua guarnição de oito homens, escapou de ser detido. Sobre o cenário de guerra, classifica-o como “um absurdo que marcou o início da ruptura entre os militares e a ditadura”.
Autor do livro ‘Sirius’, em que pretende repor a verdade sobre o que aconteceu, Marques da Silva entende que o seu nome, “na altura, foi apagado na instituição naval, tendo só sido recuperado em 2005”. O que fez “resultou do cumprimento de uma ordem clara”, garante. No dia do ataque indiano, sem ter recebido quaisquer instruções do Comando Naval de Goa sobre como actuar em caso de ataque, e depois de ver o navio de guerra ‘Afonso de Albuquerque’ encalhar, decidiu afundar a lancha.
Como mandam os manuais militares, nos dias seguintes conseguiu evitar fazer-se prisioneiro. Cumpriu as regras e recusou lutar até à morte, como pretendia Salazar. “A morte em combate é uma consequência involuntária. Não é uma expressão que a ética militar preveja numa situação de conflito”, explica.
A salvo com os seus homens, chegou ao Paquistão num cargueiro grego. De regresso a Lisboa, a sua atitude não foi bem recebida por um regime que defendia a resistência na Índia até ao último soldado.
Depois de um processo moroso e sem direito ao contraditório, acabou por ser expulso da Marinha. O caso da ‘Sirius’ nunca foi assimilado pela instituição.
Sem vencimento, casado e com três filhos, compreendeu que era necessário lutar na vida civil. Quem foi tradutor até formar-se em Engenharia espera agora clarificar uma situação que permanece esquecida na Marinha. Gostaria de convidar os homens que comandou para a apresentação de ‘Sirius’, mas desconhece o paradeiro da maior parte deles.
LIVRO NARRA TRÊS VIDAS
Quarenta e seis anos após a invasão de Goa, Damão e Diu, é apresentado amanhã, na sede do Comité Olímpico Português, em Lisboa, o livro ‘Sirius - Índia, 18 de Dezembro de 1961 - Três Casos de Marinha’, de Manuel José Marques da Silva. A obra revive a experiência de três militares no dia em que as forças indianas ocuparam os territórios. O comandante Marques da Silva recorda que, após receber ordem para afundar a lancha ‘Sirius’, viria a ser proscrito da História da Marinha. Uma segunda parte é referente ao vice-almirante Fausto Morais de Brito, que deslocou uma outra lancha, a ‘Antares’, de Damão para o Paquistão. Do capitão-tenente Vitor Marques Pedroso são reveladas as cartas no cativeiro em Pondá.
CAMARADAS PRESTAM RECONHECIMENTO
AMADORA
Na Academia Militar, na Amadora, em Outubro de 2004, o tenente--coronel José Aparício disse: “Há ainda injustiças dolorosas por reparar, como o caso da lancha ‘Sirius’, afundada no cumprimento de ordem superior.”
‘SAGRES’
No navio-escola ‘Sagres’, um ano depois, o contra-almirante Azevedo Pascoal aludiu à reparação moral que considerava necessária. “Este acto recuperou-me para a instituição naval”, entende Marques da Silva.
TESTEMUNHO
‘Sirius’, o livro agora publicado, tem no último capítulo o testemunho de pessoas próximas dos militares Marques da Silva, Morais de Brito e Marques Pedroso.
Manuel José Marques da Silva nasceu em Lisboa a 20 de Setembro de 1936 e entrou na Escola Naval em 1955. Guarda-marinha em 1958 e segundo-tenente em 1959, foi destacado para Goa a 3 de Dezembro de 1961. Após os acontecimentos de 18 de Dezembro desse ano regressou a Lisboa a 29 de Dezembro de 1961. Demitido da Marinha em Abril de 1963, viria a tirar o curso de Engenharia Electrónica. Reintegrado na Marinha em 1975, foi incorporado na reserva territorial. É vice-presidente do Comité Olímpico.
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