Sobrevivente conta como morreu colega GNR. Militar não conseguiu falar na presença do homicida.
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Militar que sobreviveu a Pedro Dias já falou em tribunal
Pouco mais de um ano depois de ter protagonizado um banho de sangue em Aguiar da Beira, em que matou três pessoas, Pedro Dias começou a ser julgado esta sexta-feira no Tribunal da Guarda. Não se sabe ainda se confessará. A sua advogada garante que irá depor no julgamento, mas o arguido recusou-se a falar na primeira sessão.
Os familiares das vítimas exigem respostas. "Queremos saber porque os matou. Queremos saber o porquê", diz Fátima Espadilha, irmã de António Ferreira, o militar da GNR que sobreviveu à matança.
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Pedro Dias entrou às 10h15 na sala de audiências. Estava algemado. O juiz agradeceu aos guardas prisionais que estando em greve vieram ao julgamento. A assistente Lídia Conceição, uma das vítimas, não esteve presente por ainda estar internada.
Pedro Dias está acusado da prática de três crimes de homicídio qualificado sob a forma consumada, três crimes de homicídio qualificado sob a forma tentada, três crimes de sequestro, crimes de roubo de automóveis, de armas da GNR e de quantias em dinheiro, bem como de detenção, uso e porte de armas proibidas.
O arguido, de 44 anos, esteve fugido durante um mês após os crimes de Aguiar da Beira, até se ter entregado às autoridades. Tem aguardado o julgamento em prisão preventiva.
GNR que sobreviveu conta o que aconteceu
O militar da GNR António Ferreira, sobrevivente da madrugada fatídica de 11 de outubro de 2016, pediu para Pedro Dias sair da sala. Não conseguia falar na sua presença. O tribunal aceitou e Pedro Dias assistiu ao depoimento por videoconferência, noutra sala. António Ferreira contou então o que aconteceu naquela madrugada. Depois de Carlos Caetano ser morto, o homicida ainda o ameaçou. "Se mexeres os cornos fo****", disse Pedro ao militar que relatou o momento, emocionado.
António diz que chamou o colega e que este já estava morto. "Foi um choque", diz. Pedro Dias disse-lhe: "És burro. Não vês que está morto." António respondeu-lhe: "Leva tudo, mas deixa-me socorrê-lo".
O militar contou que, ainda hoje, questiona as atitudes de Pedro. Conta que quando Pedro Dias o levou no carro, um colega da GNR lhe ligou. O homicida não o deixou atender o telefone e continuou às voltas com o carro entre Lameiras e Aguiar da Beira. Andaram mais de duas horas de carro com o corpo de Caetano na mala.
O homicida ainda questionou António sobre a localização do posto da GNR de Aguiar da Beira. Pensando que Pedro queria ir apagar os vestígios do crime, respondeu-lhe que havia muitos militares no posto, evitando que houvesse mais mortes.
"És burro. Não vês que está morto?"Disse Pedro Dias a António Ferreira, militar da GNR.
António relata que ainda estava escuro quando saiu do carro e Pedro Dias o olhou nos olhos e disparou. Sentiu tudo. A ser arrastado pelo chão, a serem colocadas pedras. "Quando acordei já havia dia. Tinha sangue a escorrer na cara. Fiquei um bocado perdido. O sítio não me dizia nada. Caía e levantava-me. Pensei que ia morrer", explica.
O militar conseguiu chegar a uma casa. "Ajuda-me que o Caetano está morto", disse António que não se recorda de mais nada.
Pedro Dias "irá falar durante o julgamento"
A advogada de defesa de Pedro Dias garantiu esta sexta-feira que o seu cliente vai prestar declarações.
À entrada para o Tribunal da Guarda, Mónica Quintela disse aos jornalistas que Pedro Dias "irá falar durante o julgamento". A advogada considera "muito importante que o arguido assista ao julgamento do início ao fim"
Pedro Dias "irá falar durante o julgamento"
Pedro Dias chegou ao Tribunal da Guarda por volta das 09h30, tendo a sessão começado cerca de 45 minutos depois.
Junto à porta de entrada principal encontravam-se mais de 30 pessoas, dezenas de jornalistas e algum aparato policial.
"O que se pretende com este julgamento é que se esclareça o que se passou naquela noite. Que seja feito um julgamento dentro de um Estado de Direito, de um arguido que vai ser submetido ao julgamento com todas as regras", disse ainda a advogada Mónica Quintela.
Famílias desfeitas pedem justiça
Entre lágrimas, vidas que ficaram para sempre desfeitas, são muitas as famílias que nunca pararam de chorar. Catherine Azevedo era companheira de Carlos Caetano, o militar da GNR assassinado aos 29 anos. Tinha um filho de seis anos de um anterior relacionamento, sonhava construir uma vida em comum com o homem que dizia ser a sua alma gémea.
"Nada, nunca mais será igual", disse ao CM a jovem que ainda hoje se mantém agarrada às memórias. "Respostas que não chegam, que talvez nunca as tenha. Terás o teu lugar especial sempre no meu coração, porque um amor como o nosso, jamais irá acabar minha estrelinha", escreveu a jovem no Facebook, pedindo depois ao militar da GNR: "Olha por mim, olha por nós".
Esta sexta-feira no início do julgamento, na Guarda, os familiares das vítimas puderam olhar Pedro Dias nos olhos.
Muitos confessam ter medo, outros, como Fátima, irmã do militar que sobreviveu apesar de baleado, garantem estar tranquilos. "O meu irmão está calmo. Só quer contar a verdade. É muito importante para ele que seja feita justiça".
Famílias desfeitas pedem justiça
António Ferreira sobreviveu, Liliane Pinto morreu cinco meses depois de ser baleada. Nunca recuperou dos ferimentos, nunca recuperou sequer a consciência. Mas a esperança alimentou a família durante aquele tempo. Acreditavam que seria possível recuperar a filha, que ela melhoraria.
"Senti de manhã que alguma coisa estava mal. Senti que tinha acontecido uma tragédia", disse na altura ao CM a mãe de Luís Pinto, marido de Liliane, também ela com perguntas que até hoje não tiveram respostas: "Como é que se pode aceitar a morte do filho?", perguntava.
Liliane e Luís iam a caminho do hospital de Coimbra para tentar cumprir o sonho de ser pais. Liliane e Luís sujeitavam-se a consultas de fertilidade e na mala do carro seguiam as ecografias feitas com regularidade naquela unidade de saúde.
Saíram de casa antes das seis da manhã, estavam no sitio errado à hora errada. Pedro Dias terá obrigado o casal a parar o carro e disparou. Liliane foi obrigada a arrastar o corpo do marido, o primeiro a ser assassinado, depois foi ela baleada. Morreu cinco meses depois, numa cama de hospital, sem nunca ter recuperado a consciência.
Morre aos 29 anos a cumprir um sonho Carlos Caetano tinha 29 anos e dois sonhos cumpridos: Ser GNR e estar colocado perto de casa. Estava há pouco tempo no posto de Aguiar da Beira, perto dos pais, dos irmãos e da mulher com quem já partilhava a casa. Foi assassinado a sangue frio, por volta das seis da manhã de 11 outubro de 2016.
"Uma dor que não acaba" Uma família modesta, devastada pela dor de um crime bárbaro. A mãe, Lúcia Caetano, garante que "é uma dor que não acaba". "Há dias melhores e outros que passo a chorar. É muito difícil", contou ao CM, em casa, acompanhada pelo marido e pelos dois filhos, de 15 e 17 anos.
Ambos muito próximos de Carlos Caetano e ambos com dificuldade em superar. Não falam da morte do irmão, refugiam-se no silêncio. "Ele era o meu anjo da guarda aqui na terra, eu não tenho mais ninguém", continua a mãe que lembra "não há dor maior do que perder um filho".
Também o pai de Carlos Caetano, António, vive agarrado às memórias. Todos os dias entra no quarto do filho, agora transformado em museu. "Converso com o meu filho. Sinto-me mais próximo, sinto-o mais perto", diz António que também exige justiça. "Nunca o poderemos perdoar. Ele levou o meu filho que era o meu herói", acrescenta.
Bala alojada
António Ferreira continua com uma bala alojada na coluna. Não pode ser operado e continua a correr risco de vida.
Proteção policial
O militar que sobreviveu tem proteção policial. É a única testemunha viva do banho de sangue em Aguiar da Beira.
Sem bens
Pedro Dias não tem bens. Mesmo que seja condenado, dificilmente pagará qualquer indemnização às vítimas.
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