Bombeiros e peritos alertam para riscos devido ao calor e à pandemia de Covid-19.
Receio. É este o sentimento de bombeiros e peritos face ao verão, que ontem começou, no que aos fogos florestais diz respeito. Uma posição a que o Governo responde com "um País mais bem preparado, com mais meios, mais profissionalizados e ligados".
"O contexto do risco é preocupante, também derivado à Covid-19, que vai influenciar a constituição de equipas, guarnições, tripulações de aeronaves, equipas helitransportadas e postos de comando", alerta o Observatório Técnico Independente (OTI). Para os peritos do OTI, "mantêm-se muitas das preocupações anteriores", uma vez que "além das alterações climáticas, também a suscetibilidade do território aos incêndios rurais não diminuiu".
No dispositivo de combate definido pela Proteção Civil, há um aumento de 21% nos efetivos, que passam a ser 11 825, há 60 meios aéreos (mais 25% do que em 2017) e 369 equipas profissionais de bombeiros. Já o dispositivo da GNR aumentou de 500 para 1200 efetivos. Há também 100 novos vigilantes florestais, 50 novas equipas de sapadores florestais e 12 drones de grande alcance para vigiar a floresta. Até o SIRESP – a polémica rede de comunicações de emergência - teve um reforço de 400 antenas satélite.
Admitindo que "o risco existe, agravado pelas alterações climáticas", o ministro da Administração Interna diz que 2020, pelas previsões da meteorologia, "vai ser um ano difícil", mas o ministro do Ambiente garante que "em outubro será feito o balanço devido".
Calor leva a alerta para Proteção Civil
O IPMA emitiu um aviso para o dispositivo de proteção civil, no qual alerta para o aumento de temperatura e consequente risco de incêndio.
Fogos mais difíceis, bombeiros mais seguros
Os bombeiros ouvidos pelo CM notaram que, embora a intensidade dos incêndios esteja a aumentar, o desenvolvimento dos equipamentos de segurança faz com que seja mais seguro ser bombeiro atualmente. "Estamos em equipa", explicou Daniel Costa, da corporação de Maceira. "Se não há condições para um, não avança ninguém", acrescentou.
Macieira
Daniel Costa
32 anos, bombeiro há 17 anos
Daniel Costa é bombeiro da corporação de Maceira desde 2003 e encontrava-se de serviço durante os fogos do Pinhal de Leiria, em 2018, e de Pedrógão Grande, em 2017. "São incêndios que me vão marcar para sempre. Enquanto for bombeiro, não me vão sair da memória", recordou ao CM. "Tenho família em Pedrógão e conheço a zona desde que me lembro. O fogo marcou-me muito, nunca mais vou ver Pedrógão Grande como via há 10 anos. As casas antigas, as aldeias, nunca mais vai ser igual". Na noite da tragédia ocorrida em Pedrógão Grande e concelhos vizinhos, a 17 de Junho de 2017, a equipa de Daniel Costa foi responsável por resgatar pelo menos 11 pessoas e crianças das suas habitações. "Nessa noite, foi quase preciso arrancá-las de casa", recordou o bombeiro.
Pombal
Helena Silva
50 anos, bombeira há 28 anos
Com 28 anos de experiência ao serviço dos Voluntários de Pombal, Helena Silva não esteve no combate aos incêndios de 2017, mas recorda-se bem de vários dias complicados nessa região, em anos anteriores. "O mais complicado onde estive nessa zona foi em 2015", conta ao CM. "Desde 1992 já houve vários em Oleiros, na Sertã, em Alvaiázere, situações muito complexas", afirmou. A bombeira acredita que, com a experiência acumulada de anos anteriores, os operacionais têm cada vez mais noção dos perigos que correm, mas não se esquece da importância do espírito de equipa. "Na minha corporação não se contabilizam horas. Se não houver quem nos renda, aguentamos mais um pouco", disse Helena, lembrando que "os fogos não acabam por estarmos cansados".
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