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Morreu Freitas do Amaral, o último construtor da democracia

Primeiro líder do Centro Democrático Social viveu cerco ao Palácio de Cristal.

04 de outubro de 2019 às 01:30

Diogo Freitas do Amaral, esata quinta-feira falecido aos 78 anos, foi entre os chamados fundadores da democracia portuguesa pós-25 de Abril o que não estando sempre na oposição e sendo várias vezes governo, nunca chegou a ser primeiro-ministro efetivo. Leva, porém, a palma aos também já falecidos Soares, Carneiro e Cunhal, em protagonismo de noites dramáticas com lugar na história nacional.

Esteve refém durante 12 horas no Palácio de Cristal, do Porto, no cerco ao Congresso do CDS em finais de janeiro de 1975; e viveu por dentro os mais bem guardados segredos e contenciosos que se seguiram à morte de Sá Carneiro, na queda do Cessna em 4 de dezembro de 1980.

Pessoalmente, o fundador e primeiro líder do partido do Centro Democrático Social (CDS) não teve dúvidas em qualificar, nos seus escritos, a noite do congresso de 75 como "o maior pesadelo da vida". Os acontecimentos estão algo esquecidos pelo correr dos tempos, mas o caso teve laivos de início de guerra civil.

Ao cair da tarde, Freitas do Amaral viu o seu discurso submergido por uma manifestação ruidosa no exterior, com rebentar de petardos e ‘cocktails Molotov’, aos gritos de ‘O congresso não passará’ e ‘Morte aos fascistas’. O cerco ao Palácio de Cristal obrigou à intervenção assertiva das forças militares do chamado COPCON e as atenções da comunicação social estrangeira impuseram um novo nome na luta pela liberdade e pela democracia em Portugal.

Mais secreta é a história de tudo o que realmente aconteceu nas horas seguintes às mortes de Sá Carneiro e Amaro da Costa, em Camarate.

Como líder do CDS, Freitas do Amaral ocupava o cargo de vice-primeiro ministro e dos Negócios Estrangeiros no segundo governo da AD, saído das eleições realizadas dois meses antes, e estava-se em antevésperas da votação para presidente da República, com um dos candidatos, general Ramalho Eanes, no caso opositor ao preferido pelos partidos no governo, em funções em Belém.

A luta institucional revelou-se dura, a imaginar pelo suspense e adiamentos das intervenções na televisão, ao tempo só a RTP. De concreto ficou apenas a manutenção de Freitas do Amaral como primeiro-ministro interino. E ele nunca mais conseguiu concretizar o objetivo de plenos poderes na chefia do governa ou na Presidência da República.

No mais, sabe-se que começou a mexer num executivo com o acordo PS-CDS no 2.º Governo Constitucional, em 1978, e ocupou pela última vez a pasta dos Negócios Estrangeiros no governo PS de José Sócrates em 2005-06. Com a AD foi também MNE e ministro da Defesa.

Perdeu a única Presidencial com 2.ª volta, frente a Mário Soares, em 1986 por 128 mil votos, depois de conseguir mais 1,2 milhões de sufrágios na primeira votação. Quando após cinco anos de interregno voltou a liderar o CDS em 1988, só acrescentou um deputado aos quatro antes eleitos sob liderança de Adriano Moreira.

Com apoio do presidente Mário Soares presidiu à Assembleia Geral da ONU em 1995-96. Enfim, o facto de ter levado o CDS a votar contra a Constituição, em 1976, não lhe tirou o lugar de fundador da democracia portuguesa que como todas vive do respeito entre contrários.

Elogia "espírito independente"

Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu esta quinta-feira o serviço prestado ao País por Diogo Freitas do Amaral, recordando-o "como um dos pais fundadores da democracia partidária, o último a deixar-nos", que contribuiu "de forma decisiva para a integração da direita portuguesa na democracia nascente", elogiando-lhe o "espírito independente".

"Grande estadista deixa enorme vazio"

António Costa recordou esta quinta-feira Freitas do Amaral como "um notável jurista e um grande estadista que deu um grande contributo para a construção do nosso regime democrático e à sua consolidação". Destacou ainda o "privilégio" de ter sido seu colega no Governo liderado por José Sócrates e lamentou o "enorme vazio" que deixa.

Velório e funeral

O corpo está esta sexta-feira (17h00) em câmara ardente no Mosteiro dos Jerónimos, estando prevista uma missa (19h00). Este sábado, dia de luto nacional, há nova missa (12h00) e, às 13h00, o funeral segue para o cemitério da Guia, Cascais.

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