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O regedor de Durrães

O ’senhor regedor’ de Durrães, Barcelos, completa sábado 109 anos, teimando em enfrentar a vida com a mesma autoridade com que, em tempos idos, defendia os interesses da freguesia e dirimia os conflitos da população.

02 de janeiro de 2007 às 00:00

As pernas de António Fernandes de Castro já vão dando sinais de cansaço, os ouvidos já não funcionam como antigamente e a memória também já o vai atraiçoando, mas ele não consegue evitar que os seus grandes olhos azuis brilhem de uma forma muito espec ial quando se lhe fala de Francisca, uma namorada que arranjou na vizinha fregue sia de Carvoeiro.

Em vésperas de completar 109 anos, o ‘senhor regedor’ continua a comer de tudo, sendo este, porventura, um dos grandes segredos da sua longevidade.

Até meados de 2006, ainda continuava a beber os seus copitos de vinho, sempre do tinto, mas um problema de saúde que o obrigou a tomar antibióticos alterou por completo a sua ‘dieta líquida’. “Nessa altura, demos-lhe coca-cola e, a partir daí, nunca mais quis outra coisa. Agora, se lhe dermos o vinho que bebia, já não o quer. Diz que é azedo e pede do outro, do mais docinho”, conta uma familiar.

António Castro foi regedor durante 33 anos. No fundo, era ele quem mandava na freguesia. Podia entrar na casa de qualquer pessoa, mas apenas antes de o sol se pôr. Podia até prender quem infringisse as regras da Nação. Mas, como diz, nunca prendeu ninguém, era “um regedor bom”.

Uma vez, recebeu um ofício do Exército para prender um homem da terra, que teria roubado qualquer coisa e, embora contrariado, lá foi cumprir a sua mi ssão. Entrou pela porta mas o ‘alvo’ fugiu pela janela e o regedor ficou todo contente.

Durante dois ou três anos, António Castro foi também juiz de paz. Além de poderes para resolver pequenos problemas, tinha autoridade para fazer conciliações em partilhas. “Ficava mais baratinho”, recorda, e depois, das duas uma: ou as pessoas acatavam a decisão do juiz de paz ou então tinham que ir para o tribunal, em Barcelos.

Mas a intervenção cívica de António Castro não se ficou por aqui: também fez parte da Junta de Freguesia durante alguns anos, numa época em que os orçamentos eram “muito pobres” e as despesas se cin giam a “obras” como comprar uma corda para o sino, consertar o badalo e comprar uma soga.

António Fernandes de Castro, nascido a 6 de Janeiro de 1898, foi regedor, juiz de paz e presidente da Junta de Freguesia de Durrães, no concelho de Barcelos, durante 33 anos.

Pai de 10 filhos, António Castro tem perto de duas dezenas de netos, 15 bisnetos e um trineto. Não gosta de ver televisão, mas não dispensa a companhia da rádio, sempre sintonizada na Rádio Renascença. É com ela que ainda reza o terço todos os dias. Foi no seu tempo de autarca que nasceu a primeira escola em Durrães, para evitar que os meninos da freguesia tivessem que sofrer o que ele sofreu para tirar a quarta classe, na vizinha freguesia de Quintiães.

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