"Somos caxineiros e vivemos com a morte sempre à espreita. Todas as famílias têm pelo menos um familiar que morreu numa tragédia. É nossa vida, somos um povo de sofrimento. Os caxineiros são mártires."
As palavras de fatalismo são de Joaquim Santos, pai de José Santos e cunhado de Manuel Regufe, duas das cinco vítimas mortais do acidente da EN13, em Valença, que voltou a levar o luto à pacata vila piscatória.
A dor espalha-se ao resto da família e a revolta é visível no rosto de quem perde um familiar querido. "Era última vez que o meu querido marido ia com eles. Ele ia mudar de patrão para estar mais tempo com a família. Era tão optimista, estava sempre sorridente. Na nossa família ainda não tinha havido nenhuma tragédia, mas nesta terra todos têm de viver uma", continuou Anabela dos Santos, mulher de Manuel Regufe, que deixa órfão um filho de sete anos.
Joaquim Santos recorda que o filho – que anteontem não resistiu à violência do embate – se salvou de uma tragédia no mar. "Há sete anos, vivemos momentos de pânico quando o barco em que o José pescava se afundou. Mas felizmente ele conseguiu salvar-se."
Ontem à tarde, nas ruas das Caxinas, só se viam pessoas vestidas de preto e com a cara carregada pela dor das mortes dos filhos da terra. Todos eram familiares, amigos ou conhecidos e davam apoio aos familiares dos que perderam a vida no acidente. "Somos um povo unido, porque todos nós sabemos o que é isto. A pesca é um trabalho de risco e todos os anos há vizinhos que partem em circunstâncias trágicas", lamentava um habitante das Caxinas.
Quanto aos motivos do embate continuam a ser uma incógnita. "Não sabemos nada do acidente porque ele ainda não nos contou. Agora estamos mais preocupados em tratar dos mortos", explicou a irmã de Domingos Moreira, o condutor da carrinha e mestre da embarcação.
Recorde-se que o acidente ocorreu anteontem, quando a carrinha com nove pessoas, a caminho de Vila do Conde, embateu contra um camião. Morreram Manuel Regufe, de 43 anos, José Manuel Santos, de 37, Albertino Pinto, de 43, José Moreira, de 35, e Manuel Marafona da Silva, de 48. A esposa do mestre, Natália Correia, de 47 anos, está no hospital de Matosinhos, Cláudio Cruz, de 56 anos, está na Póvoa e José Marques, de 51, em Braga.
FAMILIARES IDENTIFICARAM CORPOS NA MORGUE
Ontem, ao início da tarde, os familiares das vítimas mortais partiram em dois autocarros em direcção ao hospital de Viana do Castelo para fazer o reconhecimento dos corpos. Além de dolorosa, a tarefa revelou--se difícil. Isto porque o estado em que os cadáveres estavam não permitiu que se conseguisse uma rápida identificação.
O reconhecimento teve de ser feito através de objectos pessoais, sinais corporais e pelo historial clínico. "Fui ver o meu marido só por foto, porque não o pude ver", lamentou a esposa do Manuel Agonia Regufe, Anabela Pereira dos Santos. Já o cadáver do seu sobrinho, José Manuel Santos, 34 anos, não podia ser identificado. "O Zé Manel está irreconhecível", acrescentou outra familiar.
Durante a tarde, a família das vítimas mortais que ficou nas Caxinas aguardava com ansiedade a chegada dos corpos que estava marcada para ontem. No entanto, o facto de alguns dos cadáveres não estarem preparados para regressar, levou o grupo a optar pela saída em conjunto dos cinco pescadores. "Só sei que o meu irmão e o meu cunhado vêm amanhã nos caixões. A minha cunhada continua mal no hospital e o meu outro irmão está a ter dificuldade em aceitar tudo isto", contou ao CM, a irmã do mestre Domingos Moreira, que sobreviveu ao acidente, e do contramestre José, que não resistiu. Quando os familiares das vítimas regressaram de Viana do Castelo, os vizinhos não deixaram de lhes prestar apoio na rua.
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