Mais de uma centena de pessoas, na sua maioria políticas e empresários, aceitou ontem o desafio da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) e participou num jantar às escuras no Centro Comercial Monumental, em Lisboa. Para o presidente da ACAPO, Esteves Correia, realizar uma iniciativa com as luzes apagadas surge como “uma luz para alertar a sociedade para as dificuldades sentidas pelos invisuais e consequente necessidade de apoios”.
“Ao organizarmos este jantar com o apoio da Chamartin queremos sensibilizar o sector empresarial para melhorar as condições de vida no dia-a-dia dos deficientes visuais, co-mo o acesso ao emprego, melhorar a mobilidade e apostar na formação em actividades da vida diária”, disse Esteves Correia.
Por sua vez, Jaime Lopes, director da Chamartin Imobiliária, destacou que, embora o jantar tenha um caracter lúdico, “certamente ajudará a uma reflexão junto da sociedade para o combate à exclusão”.
Num jantar de luzes apagadas, uma situação inédita para a maioria dos presentes, coube a Bárbara Guimarães assumir o comando e ensinar como se deve comer às escuras. Assim, a apresentadora de televisão explicou que os diferentes ingredientes estão dispostos no prato, de acordo com os ponteiros do relógio. Idênticas indicações foram referidas em relação ao talheres, copos e guardanapos.
O jantar contou com apenas alguns minutos de luminosidade a 10% dos valores habituais por necessidades logísticas dos funcionários para servirem às mesas. Concretizada esta tarefa, Bárbara Guimarães explicou então como comer às escuras.
Estava lançado o desafio a cada um dos convidados de, durante o jantar, explorar as sensações olfactivas, auditivase tácteis, pois a ementaestava escrita em braille.
Para alguns, a experiência não correu da melhor maneira. A refeição acabou por durar menos de uma hora para evitar ansiedade e nervosismo nos convidados.
À mesa estiveram, entre outros, o antigo presidente da Câmara de Lisboa João Soares, o presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, a secretária de Estado da Reabilitação, Idália Moniz, e os empresários Horácio Roque, Artur Silva Fernandes e Nuno Pinto Magalhães.
DADOS ADICIONAIS
LUÍS REPRESAS
Luís Represas actuou no final do jantar e mais uma vez as luzes estiveram apagadas. Na plateia houve quem defendesse que a escuridão permite uma maior concentração na música.
PINTURA E POESIA
Um pintor cego criou vários quadros durante o jantar que posteriormente foram leiloados, revertendo a verba para a ACAPO. Numa iniciativa integrada no Dia Mundial do Livro, um cego declamou poesia.
RESTAURANTE FAMOSO
A iniciativa inspirou-se no restaurante Dans le Noir – com salas em Londres, Paris e Bruxelas – e onde se janta completamente às escuras e os empregados são cegos.
CEGOS EM PORTUGAL
São cerca de 130 mil o número de invisuais em Portugal. A taxa de desemprego pode atingir os 75%, de acordo com um trabalho de Vítor Reino.
ALERTAS EM INICIATIVA INOVADORA
A secretária de Estado Idália Moniz – ao lado do responsável da ACAPO, Esteves Correia – lamenta que persista “um grande preconceito e desconhecimento dos empresários em relação às capacidades das pessoas com deficiência”. Ao ponto, disse, de os programas de apoio não serem aproveitados na totalidade.
Coube a Bárbara Guimarães conduzir os convidados pela escuridão e ensiná-los a explorarem os outros sentidos. A iniciativa obrigou ao encerramento do Centro Comercial Monumental, pelas 16h00, a fim de se forçar o ambiente nocturno. Com a ajuda de 128 pessoas, o Monumental foi forrado a negro.
O Monumental conta com relevos no chão, que indicam o caminho para os directórios digitais, para os elevadores e placas de emergência. Directórios em braille indicam o tipo de loja existente ou o acesso a elevadores. As informações em braille serão alargadas aos restantes 11 centros da Dolce Vita.
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