Padre Vítor Melícias, presidente da União das Misericórdias Portuguesas, diz que a crise financeira se reflecte na ajuda que chega às Misericórdias.
Correio da Manhã – Há 12 anos que está à frente da União das Misericórdias Portuguesas. Vai continuar por mais um triénio. Que balanço faz?
Vítor Melícias – O mandato que agora se inicia corresponde a um novo ciclo da União das Misericórdias Portuguesas, um período de recuperação do estatuto e das actividades tradicionais da Misericórdia. A União fará incidir os seus esforços no apoio operacional à modernização das Misericórdias, sobretudo na área da Saúde, e, particularmente nos cuidados continuados, bem como na prestação das várias respostas sociais à terceira idade, tendo em atenção o envelhecimento crescente da população.
– Que tipo de modernização carecem as Misericórdias?
– Será dada maior atenção à formação do pessoal e ao melhoramento dos equipamentos e serviços prestados, visando a qualidade e a segurança.
– Que ajudas recebem?
– Os cidadãos acolhidos pelas Misericórdias são normalmente subsidiados de acordo com protocolos de cooperação estabelecidos entre a União e os respectivos ministérios, designadamente da Saúde e da Solidariedade. Cada Misericórdia, sendo autónoma, socorre-se ainda de recursos próprios, alcançados através do seu património, de donativos e da solidariedade dos cidadãos e, eventualmente, dos serviços prestados.
– E como estão de finanças?
– As Misericórdias têm sempre dificuldades. É um universo de necessidades permanente, sobretudo no sector social. As verbas são sempre insuficientes. É como um saco de fundo largo. Por mais que o Estado e os benfeitores ajudem as instituições, é preciso sempre mais. Depende também da situação social do País, pois todas as crises se reflectem. E este não é um momento glorioso para a sociedade.
– Quantas pessoas são acolhidas e tratadas pelas diversas Misericórdias?
– Muitas centenas de milhar. Talvez um milhão de pessoas diariamente, nas diversas valências com resposta social.
– Quais as valências mais procuradas?
– Muitas. Apoio à infância, desde as creches, infantários e ensino pré-escolar; apoio à juventude, com formação e actividades de tempos livres; apoio à terceira idade, desde lares a assistência domiciliária, etc.
– Que papel devem ter as Misericórdias do séc. XXI?
– As misericórdias sempre foram e devem continuar a ser casa de generosidade do povo português.
– Para si, é uma vocação?
– Estou há vários anos nesta tarefa. É um espírito de missão.
PERFIL
Vítor José Melícias Lopes, tem 65 anos e nasceu em Ramalhal, Torres Vedras. Foi ordenado sacerdote (franciscano) em Julho de 1962. Licenciou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa e em Direito Canónico em Roma, como bolseiro da Fundação Gulbenkian. É presidente da União das Misericórdias Portuguesas, desde 1991 e vice-presidente do Conselho Económico Social desde 1992. Desde 1974 que é juiz do Tribunal Patriarcal de Lisboa. Numa longa lista de cargos públicos e actividades que já exerceu, destaque para as suas funções como presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e como presidente do Conselho Coordenador do Serviço Nacional de Bombeiros. Foi comissário nacional para apoio à Transição em Timor-Leste e está entre os fundadores da TVI. Foi condecorado com a Grã--Cruz do Mérito, em 1993, e é Grande Oficial da Ordem da Benemerência.
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