Elemento do Corpo de Intervenção da GNR foi recrutado para grupo neonazi. Investigação detetou contactos com movimento "Reconquista" de Afonso Gonçalves.
Aparentemente, a mistura de uma quantidade certa de hipoclorito de cálcio com óleo de travões produz uma granada incendiária. A partir de sal normal ou sal de potássio também é possível produzir perclorato de potássio e outros compostos explosivos. Estas são algumas das receitas partilhadas, em vídeo, pelo agente da PSP Bruno Gonçalves, um dos acusados por terrorismo no caso do Movimento Armilar Lusitano (MAl), com outros membros do grupo.
Como se fosse um professor de Química, Bruno Gonçalves gravou dezenas de vídeos na sua casa, na Margem Sul do Tejo, explicando como os membros do MAL poderiam fazer as suas próprias bombas, desde que com as quantidades certas dos ingredientes. Porém, nem sempre tudo correu bem: a 12 de novembro de 2023, numa dessas experiências, procurando fazer uma granada incendiária, houve uma pequena explosão, “que fez um ruído do caraças”, explicou Bruno Gonçalves a Bruno Carrilho, outros dos acusados, esperando que “os vizinhos não se tivessem chateado muito”.
O estrondo até terá sido considerável, porque, através da plataforma Signal, o agente da PSP contou ao camarada do MAL que “até a sua filha de assustou”. Porém, tal não demoveu Bruno Gonçalves de continuar a procurar novas soluções para explosivos. Segundo a acusação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), o agente da PSP “filmou o teste, desde o início até à explosão, e tirou fotografias, incluindo do momento de chama máxima, e enviou o vídeo” a Bruno Carrilho.
Na resposta, este último suspeito, de acordo com as comunicações apreendidas no processo, comentou o engenho “ainda podia ter uma deflagração mais intensa, já tinha um potencial com iniciação química com um atraso de um minuto o que era muito bom, mas, apesar de muito barulhento, ainda não era muito destrutivo”.
Além das experiências caseiras, Bruno Gonçalves ficou ainda responsável pelo recrutamento de elementos para o MAL. Os interessados deveria, numa primeira fase, preencher um formulário, sujeitando-se, posteriormente, a uma entrevista com o agente da PSP. Um dos casos que mais o entusiasmou foi o de Adriano Sequeira, que iniciou contactos com o grupo através do Signal. Tratava-se de um sargento da Unidade de Intervenção da GNR.
Numa primeira fase, o militar fez saber ter vários cursos, conhecimentos de primeiros socorros e estar “fisicamente em forma”. Depois de recolher informações sobre o candidato junto de um antigo militar da GNR a residir na Polónia, Bruno Gonçalves encontrou-se com Adriano Sequeira, explicando-lhe “estavam o fazer um projeto novo, para se prepararem para o que iria acontecer, pois poderia acontecer uma rutura social e económica extrema e o grupo tinha o objetivo de criar uma milícia de pessoas armadas, o projeto envolvia, também, ações de treino, nas áreas da orientação militar, da condição física, artes marciais, manuseamento de armas, incluindo de Airsoft, com o objetivo de treinar o uso de armas”, detalha a acusação.
O militar da GNR chegou a obter uma licença de caça, de forma a poder manusear armas de calibre mais pesado, mas afastou-se paulatinamente do grupo.
Enquanto uns se afastavam - no final, como admitiram os suspeitos, o grupo MAL estava reduzido a cinco elementos - outros aproximaram-se. A 12 de março de 2024, o agente da PSP recebeu uma mensagem de Bernando de Abreu - que se identificou como “Sebastião” - dando conta da sua ligação ao movimento “Reconquista”, de Afonso Gonçalves, e procurando uma aproximação ao MAL.
O processo não dá conta de mais contactos. Apenas a descoberta de um envelope remetido por Afonso Gonçalves para a morada de um membro do MAL. No interior, estavam 158 autocolantes com a inscrição “Portugal aos Portugueses”.
Segundo a acusação da procuradora Cláudia Porto, que imputou crimes relacionados com organizações terroristas a nove pessoas, o Movimento Armilar Lusitano defendia uma ideologia de extrema-direita, nacionalista, neonazi, supremacista branco, antissistema, conspiracionista e aceleracionista, com uma estrutura organizada, com presença em plataformas digitais e intenção de intervenção na vida política nacional.
O MAL defendia a rejeição de sociedades multiculturais, a superioridade de determinados grupos étnicos e ideológicos, a hostilização de imigrantes, refugiados, pessoas negras, judeus, ciganos, pessoas da comunidade LGBTQIA+, muçulmanos, ativistas, governantes, partidos, jornalistas, comentadores, artistas e organizações da sociedade civil.
Luís Montenegro, Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Cavaco Silva, Marques Mendes,, Carlos Moedas, Rui Tavares, as irmãs Mortágua, Fabian Figueiredo, mas também a comentadores como Paulo Baldaia, Miguel Sousa Tavares, Maria Castelo Branco, Daniel Oliveira, entre outros, estavam na lista de alvos do MAL ou, como o próprio movimento os designava, na “Lista dos Indesejáveis”.
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