O pai do pequeno João – o bebé de nove meses que, em 2009, ficou esquecido no carro e morreu desidratado – não foi acusado pela morte do filho. O caso nunca chegou a ser julgado, porque o Ministério Público pediu a suspensão do processo, o que veio a acontecer no final do ano passado. João Carlos Moreira, que chegou a ser constituído arguido, ficou obrigado a doar dinheiro a uma instituição de solidariedade social e de apoio a crianças.<br/><br/>
Logo após a morte do bebé, o homem foi ouvido pela Polícia Judiciária de Aveiro e indiciado pelo crime de homicídio por negligência – cuja pena pode ir até aos cinco anos de prisão. No entanto, João Carlos Moreira sempre mostrou um grande sentimento de culpa: o homem não conseguiu sequer conter o choro perante os inspectores da Polícia Judiciária que o interrogaram.
A tragédia aconteceu há quase três anos, a 12 de Março. Pelas 09h30, o programador informático deveria ter entregue o pequeno João no berçário, a quatro metros do seu local de trabalho. Porém, o silêncio do bebé, que dormia no banco traseiro, fez com que o pai se esquecesse do menino dentro do automóvel.
O alerta foi dado por Catarina, funcionária do berçário, que estranhou o atraso da criança. Pelas 12h30, telefonou a João Carlos. Só nessa altura, três horas depois, é que o pai se apercebeu do que fizera: saiu a correr do trabalho, mas João já estava inanimado. O menino acabou por morrer ao sol, preso no carro, sob uma temperatura de 22 graus, o dia mais quente naquele ano, até àquela data. A desidratação foi fatal.
Desde a primeira hora que o Ministério Público mostrou alguma condescendência pelo pai. E defendeu que a culpa de perder o filho era punição suficiente.
CASAL TENTA REFAZER A VIDA
Liliana, mulher de João Carlos Moreira, ficou muito revoltada com a tragédia que se abateu sobre a sua família. Completamente devastada pela morte do filho, a mãe de João, num primeiro momento, culpou o marido pelo drama que estava a viver. Dias depois, o casal surgiu junto no funeral, de mãos dadas e dispostos a refazer a vida. Actualmente, vive no mesmo apartamento, na rua de Mário Sacramento, em Aveiro. Quando o menino morreu, surgiram rumores de que o casal se ia separar, mas João Carlos e Liliana conseguiram ultrapassar a morte da criança. Daquela união tinha nascido ainda a pequena Inês. Na altura da tragédia, a menina tinha quatro anos. Os pais decidiram contar-lhe que o irmão tinha morrido e só mais tarde explicar as circunstâncias da morte.
A MAIOR PENA FOI A PERDA DO PRÓPRIO FILHO
Quando o MP admitiu propor a suspensão do processo, em 2010, o CM ouviu vários familiares e vizinhos da família. A opinião foi comum: a pena de João foi a perda trágica do filho. "Não levarem o caso para a frente é uma excelente atitude. A pena dele é a morte do filho. É uma condenação para toda a vida", referiu, na altura, uma amiga da família, que não se quis identificar. Quando o pequeno João morreu, os colegas de trabalho do pai do menino deram-lhe muito apoio e sempre se mostraram solidários, tal como as funcionárias do berçário, onde Joãozinho nunca chegou.
JOÃO MOREIRA DEIXOU DE VIAJAR NAQUELE CARRO
Após a morte do menino, o pai, João Carlos Moreira, teve mesmo de receber apoio psicológico e recusou-se a viajar no carro onde João morreu. Semanas depois da tragédia, voltou a trabalhar na mesma empresa e a tentar refazer a vida ao lado da mulher, Liliana, e da filha, Inês. Ontem, o CM tentou falar com o casal sobre o arquivamento do processo. Porém, Liliana evitou qualquer conversa sobre o drama que viveram.
"Peço desculpa, mas nós não queremos falar sobre esse assunto. Já passou, já chega", disse a mãe do pequeno João ao nosso jornal.
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