Com 27 meses, Ana adoeceu com cólicas intestinais, tendo perdido o apetite e a vitalidade. O pai, Mário Lopes, de Lagoa, levou a menina a uma médica-pediatra, em Portimão, que, depois de fazer análises, lhe diagnosticou giardíase (uma doença provocada por um parasita intestinal) e receitou Flagyl. O que o aflito progenitor não esperava, contudo, era ter de ir buscar o tratamento da filha a Espanha, uma vez que no nosso país não existe aquele remédio em solução oral (o preparado adequado para ministrar a bebés).
“A médica receitou o Flagyl em xarope e disse-me logo que em Portugal não havia, pelo que teria de ir comprá-lo ao país vizinho”, revelou Mário Lopes ao CM, esclarecendo que a pediatra lhe deu logo, “para desenrascar”, uma embalagem que tinha no consultório, pedindo-lhe que lhe trouxesse outra em substituição, quando fosse a Espanha.
“Desta forma, um medicamento que custa menos de três euros acaba por ficar em várias dezenas”, disse Mário Lopes, indignado com a situação.
Contactado pelo CM, o médico-pediatra e director do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, Luís Batalau, sublinhou ser importante que houvesse em Portugal metronizadol (a substância activa do Flagyl) em xarope, “para as crianças”. “A giardíase não é uma doença muito frequente, mas aparece”, observou o especialista, para quem a situação actual se ficará a dever ao facto de se tratar de um medicamento “barato para o consumidor” e que, por isso, não dá grande lucro aos fabricantes. “É uma situação semelhante à da penicilina oral, que era barata e, por isso, deixou de se produzir”, disse.
Numa ronda por várias farmácias do Algarve, o CM apurou que o Flagyl é comercializado em Portugal apenas em comprimidos e óvulos, ou seja, em preparados sobretudo destinados a adultos.
A giardíase é provocada pelo parasita giardia, que pode alojar-se no intestino humano e é muito frequente em animais domésticos, que a transmitem através das fezes, pelo que é perigoso beber água não tratada, directamente de fontes ou nascentes. A doença pode causar diarreia, erupções, gases e cólicas intestinais e é considerada muito desagradável, mas não especialmente perigosa.
MANIPULADO EM ALGUMAS FARMÁCIAS
O Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento confirmou ontem a inexistência de metronizadol (Flagyl) em “na forma de suspensão oral” no nosso país, mas referiu que o mesmo “pode ser obtido mediante uma Autorização de Utilização Especial, através de hospitais e unidades de saúde, ou adquirido noutro Estado membro da União Europeia”.
Para 2007 está prevista a aprovação de novo regulamento pediátrico a nível europeu, que “visa aumentar a disponibilidade de medicamentos para uso pediátrico”. O CM apurou que algumas farmácias fazem um manipulado a partir dos comprimidos. Uma delas é a Farmácia Azevedos, em Lisboa. O preço do manipulado é muito superior ao do xarope, vendido em Espanha a cerca de 2,90 euros.
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