Em Leiria regressaram as antenas enquanto se espera que a fibra chegue
Várias aldeias do distrito de Leiria continuam sem acesso a comunicações depois da passagem da depressão Kristin.
Várias aldeias do distrito de Leiria continuam sem acesso a comunicações depois da passagem da depressão Kristin. Dois meses depois, enquanto a fibra não chega, há muitos que reativam velhas antenas para conseguirem sete canais de televisão.
Na Derreada Cimeira, no concelho de Pedrógão Grande, Vítor Henriques aproveita o bom tempo para consertar um barracão afetado pela tempestade, junto à casa que está há dois meses sem telecomunicações.
"No primeiro mês, custou muito, que quando estava a chover não havia nada para a gente fazer", conta à agência Lusa o homem de 63 anos, que se congratula por nunca ter deitado para o lixo a antena da televisão -- é o que lhe tem valido no último mês, depois de o filho o ter ajudado com a reconexão dos cabos.
Apesar de ter os sete canais disponíveis na TDT, Vítor sente saudades da diversidade que tinha com a fibra -- de acompanhar o futebol na televisão ou de ver um filme à noite com a sua mulher, Maria Tomás.
"Nem me lembro de há tantos anos ir para a cama às nove horas. Era sempre às 23h30, meia-noite e, às vezes, se estava a dar um filme bom, a gente ficava ali na Hollywood até mais tarde ainda".
Para pôr a conversa em dia com a filha que mora no estrangeiro ou para acompanhar candidaturas de apoio aos estragos pela intempérie, o casal tem de se deslocar à vila de Pedrógão Grande, face à falta de internet, explica Maria Tomás.
Apesar da falta de comunicações, a fatura de fevereiro, salienta, "veio igual".
"Eles continuam a massacrar com ofertas e mais ofertas, mas não têm nada para oferecer", criticou Vítor.
Na localidade de Carregal, no concelho de Alvaiázere, Bárbara Rosa Silveira, de 79 anos, também se socorre da antena, recuperada pelo sobrinho, mas o que a chateia mesmo é a falta da internet para falar com a filha e netos, que moram no Canadá.
"Fui operada ao peito por causa de um cancro, estou em tratamento, e a minha filha, coitadinha, está sempre preocupada comigo", lamenta a mulher que, dois meses depois, continua sem internet, e vai passando recados pelo seu outro filho, que já viu repostas as telecomunicações.
Ana Marques, proprietária do pequeno café do Carregal, contabiliza umas duas mil faturas por mandar, face à falta de internet. Documentos urgentes, diz, seguem numa 'pen' pelo contabilista, que a vai buscar em mão.
Também ali valeu a antena antiga.
"Estava bem colocada. Houve muitas que o vento levou", acrescenta o marido, Fernando Marques.
Por todo o distrito de Leiria, são várias as histórias de quem recorre à velha antena enquanto as telecomunicações não são recuperadas, reposição essa que o coordenador da Estrutura de Missão para a Reconstrução admitiu recentemente que continua bastante atrasada.
Na mesma aldeia do Carregal, Auzinda Lopes, de 53 anos, não tem nem antena nem fibra.
"Estou sem resposta", diz, admitindo saudades do conforto de chegar a casa depois de um dia de trabalho e passar algum tempo na internet ou na televisão.
"É uma aldeia. Não há outro entretenimento", diz a mulher.
Manuela Fernandes, de 46 anos, da Derreada Cimeira, com um filho de 17 anos, afirma que têm sido mais difíceis estes dois meses em que a família, sem qualquer solução de televisão, tem optado por ouvir rádio à noite.
"Ouvimos, só que é um bocado diferente. Antes, ficávamos mais tempo de pé, agora não. Vamos para a cama, mas às vezes nem se dorme, fica-se a ver passar o tempo", diz.
Também naquela localidade do concelho de Pedrógão Grande, Fernanda Lopes virou-se para a leitura para passar o tempo à noite.
"O que é que a gente pode fazer?", pergunta.
Na aldeia vizinha da Tojeira, Maria Amélia lamenta, mesmo assim, um serviço que por vezes falha com o mau tempo: "Dá assim um chuveiro na televisão e a gente não consegue ver nada".
O vizinho também se socorre da TDT depois de ter arranjado uma "antena pequenina do cunhado", que estava posta a um canto, mas admite saudades de ver os jogos de futebol.
"Agora, oiço os jogos na rádio, que é a única coisa que não mudou. Essa não falha, graças a Deus. Às vezes, falha tudo, água e o caneco, mas a rádio, essa, não falha", vinca Vítor, de 71 anos.
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