Novo caso de sucesso na cura do VIH é mais um passo para acabar com "sentença de morte"
Homem diagnosticado há mais de 30 anos é curado e na Espanha há uma paciente com cura funcional há 15 anos.
Há muito que o VIH já não é visto como uma "sentença de morte" tanto pelos doentes, como pelos médicos e investigadores que há anos que lutam para encontrar uma cura universal para o vírus de imunodeficiência humana. Ainda que essa cura não tenha sido descoberta, já é possível viver com a doença fazendo um tratamento com medicamentos antirretrovirais. Ainda assim, têm surgido alguns casos em que pacientes ficam curados devido a características muito específicas quer do próprio doente, quer do dador.
Esta quarta-feira, um grupo de investigadores californianos apresentou, numa conferência científica, o caso de sucesso de um homem de 66 anos - o mais velho a conseguir ficar curado do VIH e leucemia após ter recebido um transplante de células estaminais.
O procedimento pretendia curar a leucemia, mas os médicos procuraram um dador que fosse naturalmente resistente ao VIH, informaram os investigadores esta quarta-feira. Este método já tinha funcionado com Timothy Ray Brown, em 2007, o caso que ficou conhecido como 'O paciente de Berlim'.
Agora, o paciente com 66 anos foi o quarto caso de sucesso deste método e o mais velho doente com VIH a ser curado.
Além de ser o mais velho, também era o doente que tinha sido diagnosticado há mais tempo com o que descreveu como uma "sentença de morte" que matou muitos dos seus amigos. Vivia com o VIH desde 1988 e há mais de 30 anos que fazia a terapia antirretroviral.
Os investigadores pensam que o método funcionou porque as células estaminais do dador - usadas para curar a leucemia - têm uma mutação genética específica e rara, o que significa que lhes faltam os recetores utilizados pelo VIH para infetar as células.
Após o transplante, há três anos e meio, que se seguiu à quimioterapia, o paciente de 66 anos deixou de fazer o tratamento antirretroviral em março de 2021. Há mais de um ano que o paciente está em remissão tanto do VIH como da leucemia.
Tratamento antirretroviral resulta durante 15 anos pela primeira vez
Ainda esta quarta-feira, investigadores espanhóis apresentaram um outro caso de sucesso: uma mulher de 59 anos que faz parte de um grupo raro do que é conhecido como "controladores pós-tratamento". Este grupo, diagnosticado com VIH, pode manter cargas virais indetetáveis após a interrupção do tratamento antirretroviral e viver durante vários anos com a doença.
Uma paciente de Barcelona conseguiu algo inédito: o tratamento antirretroviral resultou durante 15 anos. Segundo os investigadores, o normal será que o vírus permaneça em valores controlados durante alguns dias ou meses, no entanto, no caso desta paciente, o vírus de imunodeficiência humana permaneceu em volume indetetável.
Embora o tratamento antirretroviral seja eficaz para suprimir replicação do vírus, o HIV persiste nos reservatórios do corpo e, se a terapia for interrompida, a carga viral aumenta novamente.
Através de um teste, os investigadorees observaram que há uma forte inibição do HIV promovida por dois tipos de linfócitos no caso desta paciente: as células 'natural killer', que fazem parte do sistema imunológico inato e constituem a primeira linha de defesa contra diferentes patógenos, e os linfócitos T CD8+, que desempenham um papel fundamental na defesa das células contra vírus e bactérias.
"Esta paciente tem níveis muito altos das duas células, o que pode bloquear o vírus ou destruir as células infetadas, alcançando assim a cura funcional", disse uma das investigadoras.
Durante a apresentação do caso, a equipa referiu que "neste momento é mais realista tentar chegar à cura funcional", ou seja, através do tratamento antirretroviral, do que uma cura efetiva com um transplante de medula óssea.
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