Tempestades causaram danos de 9 milhões em fábrica que fornece a Porsche
Temporais provocaram a destruição de casas e empresas, queda de árvores e de estruturas, corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias. Passaram-se seis meses. Na Marinha Grande, a reconstrução é lenta
“Onde havia três parafusos, vai passar a haver quatro ou cinco. E se tinha vigas de 100, vai ter de 150.” A promessa é de João Faustino, administrador do grupo TJ Moldes, cujas instalações, na Marinha Grande, sofreram prejuízos avaliados em nove milhões de euros, em consequência da passagem da tempestade ‘Kristin’, que atingiu as zonas Centro e Oeste de Portugal na madrugada de 28 de janeiro, faz amanhã seis meses.
No polígono industrial - onde, para além de aços e de peças em plástico, a empresa garante a produção de moldes para a Porsche, BMW e Mercedes-Benz, entre outras -, dois dos cinco edifícios ficaram sem cobertura e terão de ser reconstruídos. Os três restantes sofreram também danos nas fachadas e coberturas, que foram sendo reparados nos últimos meses. A empresa encontra-se agora a laborar a cerca de 70%.
“Quando desapareceram os telhados, tivemos chuva contínua em cima dos equipamentos, máquinas e ferramentas, e nos escritórios”, recordou João Faustino. “Parecia que tinha havido um tremor de terra”, disse.
Num dos edifícios destruídos estavam instaladas máquinas específicas das marcas com quem a TJ Moldes trabalha e que eram usadas para testar as peças a enviar. Sem instalações nem maquinaria, a solução temporária é enviar as peças para a Alemanha, às custas da empresa. “Sem a nossa fábrica de testes, os clientes não estão confiantes na entrega das encomendas”, admitiu o administrador, que acumula o cargo com a presidência da Associação Nacional da Indústria de Moldes (CEFAMOL). “É preciso muita resistência para dar continuidade a isto tudo. Chegar aqui, naquele dia, e ver tudo em escombros, ao final de 40 anos de trabalho, não é fácil”, disse.
“[A tempestade ‘Kristin’] foi um descalabro total para todas as empresas da região, não só para os moldes”, admitiu o responsável. “Estivemos semanas a trabalhar com geradores, nós e as outras empresas, a ter comunicações e internet apenas através de Starlink”, acrescentou.
Na TJ Moldes, as máquinas que resistiram à tempestade foram avaliadas e reparadas e os edifícios cujas coberturas resistiram aos ventos fortes foram remodelados para instalar o equipamento e continuar a laborar.
Ao CM, João Faustino recordou e elogiou o papel de colaboradores, fornecedores e amigos nos dias que se seguiram à calamidade. “Três dias depois, houve uma mobilização espontânea de colaboradores, que apareceram na empresa para começarem a retirar todos os escombros”, disse. “Apareceram não só colaboradores mas também fornecedores, amigos e pessoas que não conhecíamos de lado nenhum”, recordou.
Parede de antiga fábrica atinge casa dos vizinhos
“Tenho medo de andar naquilo que é meu. Não consigo viver assim”, disse ao CM Hermínia Leal, proprietária da casa, em Amieirinha, no concelho da Marinha Grande, cujos anexos estão ainda hoje debaixo dos escombros de uma antiga fábrica instalada no terreno vizinho, que na noite da tempestade ruiu perante a força do vento. “Isto já se alonga há muitos anos”, disse a residente ao CM. “Em 1994, o dono disse que ia demolir as instalações para fazer imóveis, o que não aconteceu. Em 2013, uma herdeira retirou as telhas de amianto. Há cerca de oito anos, foram retirados os ferros da estrutura, e ficou a parede”, disse. Hermínia e o marido, afirma, não querem dinheiro, mas sim ajuda. “Não peço que me deem indemnizações no valor do que tenho lá debaixo. Simplesmente que me ajudem a tirar o lixo e que acabem de demolir a fábrica, porque senão a ameaça vai continuar da mesma forma”, frisou.
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