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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

163 mil vivem na escuridão

De acordo com o Censos de 2001, há em Portugal 163 mil pessoas com deficiência visual, número que, segundo o presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), Carlos Lopes, pode não corresponder à realidade nacional.

30 de agosto de 2009 às 00:30

Deste mundo de escuridão fazem agora parte os seis doentes do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que a 17 de Julho perderam a visão, após uma intervenção cirúrgica. Mais do que reaprender a percepcionar o Mundo que os rodeia, vão ter de ultrapassar diversos obstáculos, para que a igualdade seja mais do que uma aspiração.

"O principal direito pelo qual nos debatemos é a igualdade de oportunidades. Tentamos caminhar para uma sociedade onde se possa praticar desporto, usufruir de um museu, ter acessibilidade a qualquer site da internet, ir a um banco ou utilizar os transportes públicos", explica ao CM Rodrigo Santos, membro da ACAPO. Uma luta justificada pelas pequenas barreiras do dia-a-dia e que, para quem não vê, se tornam intransponíveis.

Exemplo disso são as máquinas de venda de bilhetes da CP, inacessíveis a pessoas cegas ou com baixa visão. "Propusemos à empresa que adaptasse as máquinas com instruções de voz, mas esta prefere ter um funcionário que nos dê as indicações, o que potencia a dependência. Além disso, temos vindo a notar que os funcionários nem sempre estão disponíveis". Como se não bastasse, há ajudas que só prejudicam. Rodrigo Santos explica: "O que acontece quando estamos dependentes de desconhecidos é que, muitas vezes, ao lhes darmos o dinheiro, ficam com ele e viram-nos as costas".

Reparos que a CP está disposta a ouvir e a tentar solucionar. Em declarações ao CM, o porta-voz da empresa, Bruno Martins, manifestou abertura para aperfeiçoar aspectos do sistema, realçando que a opção de apoio humanizado da CP se deve ao facto de facilitar a ajuda aos diversos grupos de clientes, com exigências e necessidades muito diversas. A empresa está a implementar um novo sistema de venda de títulos de transporte no serviço de comboios urbanos de Lisboa, tendo sido recentemente concluída a primeira fase do projecto, pelo que só estão a funcionar algumas funcionalidades.

"Aquilo que queremos é que a sociedade pense de uma forma universal. Não é desejável sermos tratados de forma diferente. Quando deixarem de se ver as barreiras para se passarem a ver as capacidades, teremos uma sociedade inclusiva", rematou Rodrigo Santos.

"20 MIL DIABÉTICOS SÃO CEGOS": Florindo Esperancinha Presidente Soc. Oftalmologia

Correio da Manhã – Que doenças podem levar à cegueira?

Florindo Esperancinha – Uma das doenças mais importantes é a diabetes. Temos vindo a conseguir tratá-la ao longo do tempo, graças a estas injecções, como o Avastin, que vieram melhorar a situação. Em Portugal, existem 850 mil diabéticos com grande potencial para o desenvolvimento da cegueira. Desses, vinte mil estão realmente cegos.

Outra causa é o glaucoma, uma patologia que, muitas vezes, não dá sintomas e que afecta cem mil portugueses. A Degenerência Macular Relacionada com a Idade faz com que as pessoas vão cegando ao longo do tempo. Se não é detectada e tratada, a sua evolução é muito mais rápida. Depois ainda há outras causas vasculares como as tromboses arteriais ou a ambliopia.

– Existe uma preocupação generalizada com a saúde oftalmológica em Portugal?

– A generalidade da população está preocupada com a sua saúde e os médicos também estão preocupados e empenhados em alertar a população. Apesar de tudo, ainda existe alguma desinformação que tem de ser combatida.

– Se a população recorresse, pelo menos uma vez por ano, a uma consulta de oftalmologia, muitas doenças podiam ser evitadas?

– Cinquenta por cento dos portugueses precisa de usar óculos, por isso a consulta é essencial. Além disso, o olho é uma espécie de montra do geral, já que através dele conseguimos ver um conjunto de patologias que aí têm repercussão. Muitas doenças são detectadas durante a consulta.

TECTO DA SEDE DA ACAPO RUIU

A precariedade das instalações que acolhem a sede da delegação nacional da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) é bastante evidente se observarmos o tecto que ruiu no último Inverno ou até mesmo as escadas que à entrada do edifício nos levam, a medo, até ao primeiro andar. O apelo de ajuda surge quase como um desabafo.

"Precisamos de parceiros que nos ajudem a reabilitar este espaço de extrema importância nacional. É necessário revitalizar a sede para que este seja um edifício verdadeiramente inclusivo", referiu Rodrigo Santos, tesoureiro da ACAPO.

Mas os problemas não terminam aqui. "A nossa produção em braille é feita num apartamento em Chelas com grandes infiltrações. Uma avaria nas impressoras pressupõe enviá-las para Espanha ou Suécia e são centenas de euros que não temos como pagar", disse Carlos Lopes, presidente da ACAPO.

APONTAMENTOS

ACOMPANHAMENTO

Uma das valências da ACAPO é a prestação de acompanhamento social e psicológico aos sócios e utentes. Uma equipa de técnicos especializados ensina às pessoas cegas estratégias para que possam ganhar autonomia e auto-estima.

ESTIMULAÇÃO SENSORIAL

As crianças cegas ou com baixa visão a partir de um ano também são apoiadas pela associação. Através das salas de estimulação sensorial, as crianças conhecem as formas e as texturas dos objectos.

DELEGAÇÃO DE SETÚBAL

Neste momento está a ser equacionada a possibilidade de abertura de uma nova delegação, em Setúbal. No futuro, a ACAPO gostaria de apoiar ainda os distritos de Santarém, Portalegre, Évora e Beja.

APOIO DO ESTADO

A ajuda do Estado para os apoios prestados pela ACAPO situa-se abaixo dos 80 por cento do custo das equipas de que dispõem, o que exige grande esforço para encontrar fontes alternativas de receitas.

AUDIODESCRIÇÃO

Apesar do plano que obriga as televisões generalistas a disponibilizarem de audiodescrição ter entrado em vigor no dia 1 de Julho, as pessoas com deficiência visual queixam-se do não-cumprimento da norma.

HÁBITOS ALTERADOS E TER UMA AJUDA SEMPRE POR PERTO

Maria Antónia Martins, uma das seis pessoas que ficaram cegas no Hospital de Santa Maria, viu a sua vida levar uma volta de 180 graus. Desde a administração das injecções que lhe tiraram a visão do olho direito, que foi obrigada a mudar as rotinas e hábitos de vida. Diz que quem lhe vale é o marido António.

"Sinto-me um farrapo. Os primeiros tempos estão a ser muito complicados. Graças a Deus que o meu marido me ajuda muito e tem sido o meu suporte. Faz a comida, passa a ferro, tem sido incansável", disse ao CM Maria Antónia, ao fim de uma semana na sua casa, em Vendas Novas, após ter alta hospitalar.

No olho direito tem agora "uma completa escuridão" que lhe tirou autonomia. Pelo menos nos tempos mais próximos estará dependente dos tratamentos (coloca gotas várias vezes ao dia), das idas a Lisboa duas vezes por semana para continuar a reabilitação da vista e recebe ainda ajuda da Segurança Social para a limpeza da habitação.

"Está a ser muito duro, mas só de estar em casa já me sinto melhor e capaz de fazer alguma coisa, mas tenho de descansar", acrescentou a mulher que ao longo da vida se deparou com outras complicações de saúde.

Cardíaca e diabética, Antónia estava longe de imaginar que iria cegar depois de vinte anos a ser seguida na Oftalmologia. "Só ceguei de um olho, mas foi uma grande volta que a minha vida deu", desabafou, lamentando a cegueira e o facto de não poder dedicar tempo a uma das suas grandes paixões: a costura.

"Ainda não perdi a esperança de voltar a ver, mas ninguém me deu certezas. Vamos esperar".

PERFIL

Antónia Martins tem 66 anos e é casada com António há 44. Natural de Lavre, Montemor--o-Novo, vive na actual casa, em Vendas Novas, há quase quatro décadas. Tem uma filha e uma neta. Dedicou toda a vida à família, à casa e à costura, uma das suas grande paixões. Para além das complicações oftalmológicas também sofre de problemas cardíacos e diabetes.

ADAPTAÇÃO DO PLANO DE ESTUDO

Na escola há a tentação de se adaptar o plano de estudo ao aluno com deficiência visual, na tentativa de o enquadrar melhor perante as suas capacidades. A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, porém, alerta para o facto de se estarem a diminuir as capacidades reais do aluno com este tipo de atitudes.

NOTAS

BRAILLE

Obraille é um sistema de leitura com o tacto para cegos inventado pelo francês Louis Braille

SEDE DA ACAPO

Asede da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal situa-se na rua S. José, n.º 86, em Lisboa

TECNOLOGIA 

Muitas pessoas com deficiência visual possuem tecnologia que lhes permite navegar na internet

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