Em Montemor-o-Velho contam-se os dias até que as casas e as estradas fiquem limpas. Caudais dos rios estão a baixar, tanto no Mondego como no Tejo.
Natália de Sousa é, aos 79 anos, um exemplo de resiliência, generosidade e altruísmo: todos os dias tem feito comida para oferecer aos voluntários, e não só, que estão a ajudar as populações do Baixo Mondego a regressarem à normalidade. “Tenho aqui um bolinho que ainda está quente e não fica pior com isto aqui”, diz Natália de Sousa, enquanto abre um saco onde tem vários tipos de pão e um tacho. Chegou carregada a Ereira, Montemor-o-Velho, numa lancha anfíbia, veículo dos fuzileiros que se assemelha a um barco com rodas. Serve para andar por terra, mas também no mar. É a única forma de se chegar a esta aldeia que há vários dias se transformou numa ilha. Os fuzileiros transportam quem precisa, de Montemor-o-Velho para Ereira. Um trajeto que de carro se fazia em dez minutos e que, atualmente, demora uma hora. “Acordei às 5 horas da manhã, mas faço isto com gosto”, diz Natália, que trouxe comida para “este pessoal todo”, apontando para os fuzileiros e bombeiros, que, com um sorriso, agradecem e abraçam Natália. É apenas um dos exemplos de solidariedade. Há quem tenha ficado com a casa alagada. “Há quase 15 dias que andamos nisto. É a cheia mais dura”, diz um dos comerciantes. Acredita-se que o nível da água demore perto de uma semana a baixar para uma cota em que seja possível voltar a atravessar a estrada sem a ajuda dos militares.
O que se mantém cortada é a circulação na A14, no nó de Santa Eulália, que apenas se pode fazer no sentido Figueira da Foz-Coimbra. Estão encerrados todos os acessos no sentido da Figueira da Foz, segundo a Brisa, bem como o acesso à Ereira a partir da A14. A A1 mantém-se cortada entre os nós de Coimbra Norte e Coimbra Sul.
Já no distrito de Santarém, apesar da diminuição do caudal no Tejo, ainda há muitas zonas alagadas e estradas cortadas ou intransitáveis. “Baixámos do nível vermelho para o amarelo, mas isso não significa que tudo esteja resolvido. Estamos a entrar numa fase de levantamento de prejuízos, arranjo de infraestruturas e limpeza, permitindo às famílias e empresas começarem a recuperar”, disse Manuel Jorge Valamatos, presidente da Comissão Distrital da Proteção Civil e autarca de Abrantes, um dos concelhos mais afetados pelas cheias.
E também
Suinicultores alerta para crise
Os suinicultores alertam para a “maior crise de sempre” no setor devido ao impacto causado pelo mau tempo, com metade das explorações nacionais afetadas e prejuízos de “muitos milhões”, pedindo urgência nas ajudas. Só na região de Leiria, mais de 50 explorações ainda estão a trabalhar com geradores, num custo diário de 600 euros.
Recolha de donativos
Uma campanha de recolha de donativos para apoiar as populações afetadas pelas recentes tempestades foi lançada pela Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares contra a Fome e pela associação de solidariedade Entreajuda.
Mais de 11 mil às escuras
Quase três semanas após a passagem da ‘Kristin’, 11 mil clientes da E-Redes continuavam ontem sem energia elétrica, nos concelhos afetados pela depressão.
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