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Carnaval da ilha Terceira une gerações e promove talentos

Durante quatro dias, a ilha Terceira não dorme a celebrar o Carnaval.

15 de fevereiro de 2026 às 09:56

O Carnaval da ilha Terceira, nos Açores, é um festival de teatro popular feito de forma gratuita por centenas de músicos e atores amadores e mesmo quem dá o "salto" para palcos maiores, continua a participar.

Em 2021, o grupo Fadoalado, da ilha Terceira, venceu o concurso "Got Talent", na RTP, mas foi nos palcos do Carnaval que as vocalistas deram os primeiros passos e é aos palcos do Carnaval que regressam todos os anos.

"O que me faz voltar todos os anos é o amor que eu tenho por este grupo, as amizades que o Carnaval me deu - que é o que eu mais louvo e agradeço. E depois não há nada mais satisfatório do que as palmas, os risos, e quando dizem que fizemos um bom trabalho e que estão orgulhosos", afirma, em declarações à Lusa, Sara Mota, uma das cantoras do grupo.

Durante quatro dias, a ilha Terceira não dorme a celebrar o Carnaval. Entre sábado e terça-feira de Entrudo, cerca de seis dezenas de grupos percorrem mais de 30 salas por toda a ilha, atuando até de madrugada.

Ao todo, passam pelos palcos da Terceira perto de 1.500 músicos e atores, para apresentar danças e bailinhos de Carnaval, manifestações de teatro, com crítica social, intercaladas com música e coreografias.

Lado a lado, há quem já tenha passado pelo conservatório ou esteja em filarmónicas, grupos de folclore ou grupos de teatro, mas também quem só pise um palco nos dias de Carnaval e, por vezes, é a partir da experiência ganha nestes dias que nascem grupos musicais ou de teatro.

Filhas de um conhecido cantador ao desafio da Terceira, Sara e Leandra Mota participaram pela primeira vez nestas manifestações quando ainda eram adolescentes, em 1999, mas há muito que já conheciam por dentro as danças e os bailinhos de Carnaval.

"O meu pai sempre fez Carnaval, a gente cresceu nisto. Sempre foi uma época muito marcante na nossa casa", lembra Leandra Mota.

Com vozes distintas, começaram a cantar em dueto como "puxadoras" (principais vocalistas dos grupos) de bailinhos de Carnaval.

"Antes disso não tinha pisado um palco e nem sequer sabia se tinha capacidade de fazer vozes como faço hoje em dia", refere Sara.

Em 2008, decidiram organizar o seu próprio bailinho, que se mantém até hoje, ainda que com novas caras todos os anos.

Foi no bailinho de Carnaval que cresceram enquanto cantoras e atrizes e foi graças a ele que descobriram as restantes vozes dos Fadoalado, que viriam a formar em 2016.

"A Filipa foi para o nosso bailinho com 10 ou 11 anos e ia tocar bandolim, mas depois a gente apercebeu-se de que ela tinha voz e começou a cantar. E é engraçado, porque ninguém na família dela canta e ela tem aquele vozeirão. Depois, mais tarde, veio a Lizélia, que ia tocar saxofone, mas viemos a descobrir que também cantava. A Ivânia já sabíamos que cantava, mas não sabíamos que era com aquela voz poderosa", recorda Leandra.

No bailinho das irmãs Mota, participam médicos, enfermeiros, lavradores, cabeleireiras, funcionários da companhia aérea SATA e da Base das Lajes, mas na hora de subir ao palco despem as profissões e são todos atores, músicos e cantores.

Sem entidades organizadoras ou cobrança de 'cachê', o Carnaval da Terceira acolhe toda a gente e, muitas vezes, há quem surpreenda em palco.

"O meu cunhado é uma pessoa simples, é um lavrador. E, no entanto, quando ele está a representar, eu acho-lhe imensa graça. Ele é muito natural. É aqui que se descobrem essas coisas, é no Carnaval gratuito, porque eu acho que se fosse pago, as pessoas já iam ter outro tipo de exigência. Como é feito gratuitamente, tem outra leveza", defende Leandra.

Tal como Sara e Leandra cresceram a acompanhar os bailinhos do pai, a filha de Leandra, Maria, também cresceu nos salões da Terceira.

"Ela adora. Também tem esta referência do lado paterno e, no verão, já começa a perguntar se vamos ter bailinho", revela Leandra.

Maria tem 11 anos e participa este ano pela quarta vez num bailinho de Carnaval, mas quem apenas ouvisse a sua voz não lhe daria a idade que tem.

"Quando eu era muito pequenina, ia para o Auditório do Ramo Grande com a minha avó. Em 2023 comecei a sair [participar] e, agora, acho que já não largo mais. Só se acontecer algo muito grave", adianta.

Para Maria, cantar no Carnaval, ou fora dele, é uma forma de fazer passar sentimentos através das palavras: "Às vezes há algumas palavras que os outros conseguem sentir do outro lado, por isso é muito importante para mim. Cantar é um dom".

Há jovens que aprendem a tocar um instrumento musical apenas para poderem participar no Carnaval da Terceira, como é o caso de Filipa Lima, que entrou para o bailinho com 11 anos e hoje integra os Fadoalado.

"Eu cresci em casa da Sara e da Leandra, a vê-las cantar, e sempre me apaixonei por aquilo que elas faziam. Dizia sempre que um dia gostava de sair numa dança delas", conta.

"Desde pequenina que eu tocava pandeiro ou a flauta da escola. As minhas brincadeiras eram ou 'puxar' ou tocar numa dança", acrescenta.

Leandra Mota acredita que foi a experiência dos muitos anos de Carnaval que as levou a chegar onde nunca se tinham imaginado antes.

"Quando estávamos no "Got Talent", nunca pensei que fôssemos ganhar. E tanto que estávamos lá muito simples. Foi natural, fomos nós, fizemos a nossa música, e isso nasceu daqui. É engraçado, mas nasceu daqui, do Carnaval", reforça.

Com os Fadoalado, Sara Mota já pisou palcos de grandes salas de espetáculos. Atuou em todas as ilhas dos Açores, no continente português, nos Estados Unidos e no Canadá, mas nos minutos antes de se abrir o pano de um salão de Carnaval, garante que o coração ainda bate mais rápido.

"Eu fico nervosa de todas as vezes e até me dá vontade de chorar antes de entrar no palco. O meu respeito pelo Carnaval é tão grande, que estou a arrepiar-me toda. Nem sei explicar bem o que se sente", confessa.

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