Chuva encheu a barragem de Aguieira 3,5 vezes e a barragem das Fronhas sete vezes.
O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Pimenta Machado, afirmou esta sexta-feira que Coimbra atingiu um recorde de precipitação entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026.
Em Coimbra, segundo dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), "entre 01 de outubro [de 2025] e 16 de fevereiro [de 2026], foi o recorde, do ponto de vista da precipitação, de sempre, com 1.238 milímetros. O segundo recorde de precipitação data de 1966", disse.
Trata-se de "uma situação excecional", a que se juntaram "três semanas muito difíceis [vividas a partir de 28 de janeiro]", onde a chuva encheu a barragem de Aguieira 3,5 vezes e a barragem das Fronhas sete vezes.
Pimenta Machado falava esta manhã, em Coimbra, na cerimónia de assinatura de um protocolo de colaboração entre a APA e a Ordem dos Engenheiros, para a elaboração de um relatório técnico sobre as cheias de 2026 na Bacia do Mondego e revisão dos modelos de gestão do risco.
De acordo com o responsável, os incêndios “agravaram e condicionaram muito a gestão destas cheias”.
“E, adicionalmente, também a questão da neve da Serra da Estrela”, completou, incitando que o contributo do degelo para o caudal do rio seja estudado a partir do acordo hoje celebrado.
O presidente da APA recordou que o projeto hidráulico da Bacia do Mondego foi desenhado nos anos 1970 e concretizado na década seguinte, traduzindo-se numa ferramenta “que tem tudo, mas que foi desenhada num tempo em que o clima não era o mesmo”.
“O clima está diferente. E não é por acaso que, nos últimos 25 anos, em 2001, 2016, 2019 e 2026, tivemos picos de precipitação excecionais”, sublinhou.
Segundo Pimenta Machado, em 2001, “o caudal chegou a 1.800 metros cúbicos” e os diques rebentaram em 16 locais (um deles foi para o lado esquerdo, criando uma “situação mais vulnerável”, pela presença de pessoas).
Já em 2026, o dique rebentou “para o lado direito, muito próximo do mesmo local [de 2001]”, explicou, referindo ser preciso analisar esta situação.
O responsável defendeu também a atualização do projeto hidráulico, “em função daquilo que é o regime de precipitação, o regime hidrológico e, no fundo, torná-lo mais resiliente e adaptado às alterações climáticas”.
Em declarações aos jornalistas, à margem da sessão, o presidente da APA, relativamente ao sifão próximo da Autoestrada 1 (A1), destacou o “facto excecional” de, em decorrência dos incêndios, haver muita madeira queimada no rio, acrescentando que ele “não funcionou como era esperado”.
“O que eu peço agora à comunidade científica é que avalie isso e perceba de que maneira os tais sifões, perante uma situação completamente diferente, podem funcionar”, completou.
Várias tempestades assolaram Portugal continental desde o final de janeiro, tendo sido a mais violenta a depressão Kristin, em 28 de janeiro.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
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