Escolas privadas podem decidir qual o valor a cobrar pelo almoço, para os da rede pública há limites claros.
Nos colégios privados que recebem alunos da rede pública, as senhas de almoço não podem custar mais de 1,46 euros, obrigando as direções a procurar outras receitas para cobrir os custos e manter uma "cantina igual para todos".
São já poucas as escolas com contratos de associação e ainda menos aquelas que juntam alunos do ensino privado e da rede pública. "Se houver duas ou três, são muitas", disse à Lusa o coordenador das escolas com contrato de associação da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), Manuel Bento.
Um desses colégios ganhou notoriedade nos últimos dias, na sequência de uma notícia da Lusa que revelou que as refeições servidas aos alunos que pagam mensalidades são melhores do que as dos restantes. Mas a diferenciação que existe nos Salesianos de Manique, em Cascais, não se repete noutros colégios que também têm regime misto.
“Aqui a cantina é igual para todos, não há refeições diferenciadas”, contou Pedro Marques, diretor pedagógico do Colégio de Albergaria, no distrito de Aveiro, onde estudam cerca de 125 alunos financiados pelo Estado e outros tantos em regime privado.
Se aos estudantes do privado as escolas podem decidir qual o valor a cobrar pelo almoço, para os da rede pública há limites claros: O Estado dá 1,54 euros por refeição e as famílias pagam, no máximo, 1,46 euros.
Contas feitas, as escolas têm 2,99 euros, ou menos se receberem meninos carenciados, que podem ficar isentos ou pagar apenas metade do valor da senha.
No caso do Colégio de Albergaria, os estudantes do regime privado pagam três euros, mas disponibilizar refeições diferenciadas nunca esteve em cima da mesa, nem para a direção, nem para as famílias.
A pouco mais de 130 quilómetros, no Colégio de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em Leiria, alguns pais chegaram a sugerir pagar mais para melhorar a qualidade das refeições, mas a hipótese foi afastada pelas irmãs dominicanas.
No colégio de Leiria as turmas do pré-escolar e 1.º ciclo são em regime privado, enquanto as turmas do 5.º ao 9.º ano são todas financiadas pelo Estado. Mas ali, todos partilham as mesmas instalações, incluindo a cantina, e todos comem o mesmo prato.
“É uma luta que temos, porque o que os pais pagam pela refeição fica muito aquém do que servimos”, admitiu Elisete Brás, diretora pedagógica do colégio, que considera insuficientes os 1,54 euros comparticipados pelo Estado para assegurar refeições de qualidade.
A diferença tem de ser, muitas vezes, suportada pelas escolas, mas depois de pagar salários e despesas correntes, sobra muito pouco dos cerca de 80 mil euros que recebem do Ministério da Educação por turma.
Os diretores tentam procurar outras receitas para fazer face aos custos, seja através das mensalidades cobradas aos alunos do privado, receitas do bar ou aluguer de espaços, exemplificou Pedro Marques.
“É muito difícil gerir colégios em contratos de associação: Já tivemos 18 turmas hoje temos cinco turmas”, acrescenta o diretor pedagógico, para quem o ideal seria receber do Estado entre quatro a cinco euros por refeição.
Com apenas 1,54 euros, as opções acabam por ser mais limitadas.
“A solução é ter prato único, não há possibilidade de ter variedade, não temos possibilidade de ter prato vegetariano”, exemplificou Pedro Marques, sublinhando que, ainda assim, o colégio trabalha “em condições extremas” e com uma “gestão muito rigorosa da cantina”.
No atual contexto de guerra, a ameaça de subida dos preços tem deixado as escolas ainda mais preocupadas e Elisabete Brás diz que o colégio se encontra “num momento de quase rutura”, apelando à revisão dos contratos de associação.
Manuel Bento, da AEEP, também dirige um colégio com contrato de associação, mas sem alunos em regime privado, e conhece bem as dificuldades para disponibilizar refeições de qualidade.
No Centro de Estudos de Fátima, a ementa tem quatro opções – dieta, peixe, carne e vegetariano – só possível porque a escola aluga o espaço da cozinha para vender refeições para fora.
“Nenhuma escola com contrato de associação consegue ter um concurso com três euros”, sublinha, reconhecendo que as dificuldades não são exclusivas dos colégios e estendem-se também às escolas públicas.
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