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'Datting Burnout': O vício em dopamina que transforma as aplicações de encontro num jogo de azar

78% dos utilizadores estão em exaustão afetiva. Psicóloga e sexóloga entrevistada pelo CM alerta para os perigos.

30 de abril de 2026 às 15:43

A exaustão já não é uma sensação, é uma estatística negra. O mais recente estudo da Forbes Health revela que 78% dos utilizadores estão em burnout afetivo. O cenário é mais grave entre os Millenials (80%), nascidos entre 1981 e 1996, e a Geração Z (79%), nascidos entre 1995 e 2010, que perdem, em média, 51 minutos por dia a alimentar uma máquina que cada vez menos consegue entregar o que promete.

Para 40% das pessoas, o resultado de quase uma hora de "esforço" diário é o vazio absoluto: a incapacidade total de criar uma ligação real. Esta exaustão tem raízes profundas na forma como o nosso cérebro processa o outro.

O vício da validação

Para a psicóloga e sexóloga Ana Cláudia de Oliveira, entrevistada pelo CM, o ambiente das apps favorece o vício em detrimento do afeto. "O match ativa o sistema dopaminérgico, o mesmo envolvido em jogos de azar. Muitas pessoas não estão viciadas em amor, mas na sensação momêntanea de serem desejadas". Esta dinâmica altera o foco do utilizador: "O foco desloca-se de conhecer alguém para sentir validação imediata. O cérebro recebe um pico de prazer ao ser 'escolhido', mas como essa validação é superficial, o efeito passa rápido e o ciclo recomeça".

Nas app's, a confiança é um luxo que poucos podem receber. O estudo indica que 21% dos adultos mentem na idade, seguidos de mentiras sobre rendimentos (14%) e até o estado civil (13%). A frustação aumenta quando o match torna-se um troféu inútil numa galeria de silêncios.

Segundo a especialista, o excesso de opções gera o chamado "paradoxo da escolha": "Quando temos muitas opções, não escolhemos melhor, escolhemos pior e com mais ansiedade. O excesso de perfis gera sobrecarga cognitiva e mantém o cérebro em modo de procura constante, em vez de vínculo".

A 'guerra emocional'

E no lugar da exaustão emocional, existe ainda espaço para violência psicológica que deixa marcas. O ghosting, desaparecer sem aviso, já afetou 41% dos utilizadores, enquanto o catfishing, perfis falsos, vitimou 38%. Práticas como o love bombing, excesso de afeto no início para manipular depois, e o gaslighing, manipulação que faz duvidar da própria sanidade, transformam a procura do parceiro ideal num cenário de guerra emocional. As mulheres são as principais vítimas deste sistema, com 80% a reportarem níveis severos de exaustão afetiva.

Ana Cláudia de Oliveira alerta para a gravidade destas rejeições invisíveis. O silêncio, ou o famoso ghosting, é "uma das formas mais agressivas de rejeição, ativando áreas cerebrais semelhantes às da dor física".O impacto a longo prazo é profundo: "Pode gerar insegurança relacional, hipervigilância emocional e medo de se envolver novamente. Não é 'só um sumiço', é uma rejeição ambígua que o cérebro tem dificuldade em processar".

Esta 'linha de montagem' do romance moderno está a criar, segundo a psicóloga, o fenómeno do amor líquido. "Relações mais frágeis, rápidas e descartáveis. O risco é perdermos a paciência necessária para construir intimidade, que é, por natureza, lenta e imperfeita".

Novas formas de encontrar o amor

Para quem quer fugir à fadiga do swipe, deslizar/passar, surgem alternativas que priorizam a voz e o tempo de interação real. Para a especialista, estas ferramentas ajudam o cérebro a sair do modo "consumo" para o modo "conexão".

A Eight, recém lançada aplicação portuguesa, é a primeira aplicação de encontros que troca o scroll infinito por conversas em vídeo cara a cara. Tudo começou com a pergunta:  E se as apps de encontros fossem desenhadas para realmente funcionar? "Um mundo onde as pessoas conhecem pessoas, não perfis. Onde as conexões são intencionais, autênticas e levam a algo real", pode ler-se no site da empresa tecnológica.

Todas as noites, das 20h00 às 21h00, a plataforma ativa uma comunidade em tempo real onde vídeos de apresentação de 30 segundos dão origem a conversas cara a cara de 8 minutos. Este modelo substitui a navegação estática por interações de vídeo com oito minutos de duração, permitindo que os utilizadores criem conexões espontâneas e verificadas num ambiente exclusivo e moderado. Com cerca de 15 mil utilizadores registados, a Eight pretende ir além fronteiras e já conta expansão internacional planeada.

Já se imaginou ser vendado e sentar-se à mesa de um restaurante com um desconhecido? É o plano de primeiro date organizado pela Unseen Connection. A iniciativa, criada em setembro do ano passado em Londres, no Reino Unido, expandiu-se após sucesso inicial. Atualmente, além da capital britânica, marca também presença em Lisboa, Porto e Dublin.

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No entanto, as novas plataformas que tentam humanizar o digital são apenas metade da solução. Como sublinha a especialista, nenhuma ferramenta, por mais inovadora que seja, substitui a maturidade emocional. "Ela pode facilitar, mas nao faz o trabalho interno". No final da 'linha de montagem', o balanço é amargo: as apps foram feitas para capturar a atenção, não para sustentar vínculos.

"O verdadeiro desafio hoje não é apenas encontrar alguém, mas não se perder a si no processo. Relações saudáveis continuam a exigir presença, consistência e vulnerabilidade", rematou Ana Cláudia de Oliveira. Dimensões que nenhum algoritmo consegue automatizar, mas enquanto o polegar continuar a deslizar pelo vidro do telemóvel, o amor torna-se o grande ausente de uma festa onde todos estão convidados, mas ninguém realmente quer ficar.

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