Pelas 19h30, o salão da Junta de Freguesia estava praticamente cheio de alimentos, roupas, cobertores, lonas e telhas.
Dezenas de voluntários em Tramagal organizaram uma recolha de bens e deslocaram-se ao terreno para apoiar famílias da Marinha Grande afetadas pela tempestade Kristin, num movimento solidário que mobiliza a comunidade, Junta de Freguesia e empresas locais.
Desde manhã cedo, dezenas de voluntários receberam as ofertas, separando-as por tipo de bens. Ao final do dia, pelas 19h30, o salão da Junta de Freguesia estava praticamente cheio de alimentos, roupas, cobertores, lonas e telhas, prontos para seguir para a Marinha Grande.
"Há uma grande comunidade tramagalense radicada na Marinha Grande e este movimento nasce mesmo por aí", afirmou António José Carvalho, presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, no concelho de Abrantes (distrito de Santarém).
Com essa "ligação muito forte", a comunidade decidiu ajudar e juntou-se "um movimento que está muito grande", salientou o autarca, assegurando que "a junta está a dar o máximo para que a iniciativa tenha sucesso, disponibilizando o espaço para receber os bens".
Além disso, acrescentou, a junta também já deu apoio no terreno "cortando árvores, desimpedindo vias e reparando telhados" na Marinha Grande.
"Ontem [domingo] fomos à Marinha Grande com uma equipa de voluntários e funcionários da junta. Limpámos e cortámos as árvores caídas numa escola secundária, desbloqueámos ruas obstruídas por pinheiros e ajudámos a reparar telhados danificados. Foi uma forma de perceber de perto a dimensão dos estragos e de oferecer apoio direto à nossa comunidade", contou à Lusa.
Esta segunda-feira, na Junta de Freguesia, enquanto uns voluntários recebiam os bens, outros davam informações sobre as necessidades e outros ainda separavam e embalavam por seções.
O 'feedback' da ação chegou em tempo real através de Celeste Baião, conterrânea e funcionária na Marinha Grande, que relatou o cenário de destruição e agradeceu a ajuda.
"O nosso agradecimento ao presidente da Junta de Freguesia de Tramagal e aos seus colaboradores que vieram ajudar na limpeza da Marinha Grande. Um bem-haja a todos. Hoje por nós, amanhã por outros", disse.
Elsa Ervideira, voluntária que integra e dinamiza a iniciativa, explicou que o movimento partiu "do nada".
"Isto partiu do nada, numa ação que começou por um apelo que lançámos nas redes sociais. É a forma de dizermos: hoje eles, amanhã nós. Aquilo é um caos, um cenário de guerra sem bombas. As pessoas precisam de tudo e o pouco é muito para quem não tem nada", contou.
Segundo a voluntária, o foco do movimento, embora inicialmente direcionado para a comunidade tramagalense, estende-se a todas as famílias afetadas na Marinha Grande.
"Temos aqui um salão enorme, cheio de bens de primeira necessidade. O pouco vai ser muito quando lá chegar. É impressionante o calor humano que sentimos aqui", salientou.
Dina Monteiro, também voluntária, reforçou o impacto solidário.
"Temos recebido muita coisa e a solidariedade tem sido crescente. Estamos a orientar as pessoas sobre o que é mais necessário, água, bens para bebés, higiene, fraldas, leites e papas e até para ajudar animais. Amanhã [terça-feira] cedo começaremos a carregar tudo nos camiões com apoio de empresas locais, para que o material chegue rapidamente a quem precisa", adiantou.
Entre bens empilhados, sacos de alimentos e lonas, num contexto em que a sub-região do Médio Tejo ainda lida com os estragos da tempestade Kristin -- quedas de árvores, telhados danificados, falhas de energia e sistemas de água -- o salão de Tramagal tornou-se um símbolo da solidariedade e humanismo.
"Não é só levar bens, é levar esperança e mostrar que ninguém está sozinho", realçou um dos voluntários.
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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