Dados oficiais revelam que os preços médios do gasóleo registaram subidas superiores em sete dos países identificados.
Nos últimos dias circula uma tabela que coloca Portugal na liderança dos aumentos dos combustíveis, com uma subida de 23 cêntimos face a subidas de apenas três a 10 cêntimos noutros 12 países europeus, mas esses números são falsos.
Alegação: "Portugal é o país onde o aumento dos combustíveis é maior face a todos os outros países da UE"
Desde dia 10 de março, pelo menos, circulam nas redes sociais dezenas de publicações com uma tabela com os alegados aumentos no preço dos combustíveis devido ao conflito no Irão, com Portugal a surgir destacado enquanto país onde o aumento dos preços foi maior (https://archive.ph/4DpAb, https://archive.ph/9oMV8, https://archive.ph/ZEsR3 e https://archive.ph/EKoNH).
Além de Portugal, com uma subida de mais 23 cêntimos por litro, a tabela inclui os alegados aumentos em Espanha, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Reino Unido, Irlanda, Polónia, República Checa e Áustria, embora também circulem versões apenas com seis países (https://archive.ph/pxrUI, https://archive.ph/mY9yf, https://archive.ph/wHfD5 e https://archive.ph/nGhnV).
Segundo os dados apresentados, a subida de preços nestes países europeus oscilaram entre os três dez cêntimos por litro, com Espanha a surgir em segundo lugar a seguir a Portugal, mas apenas com uma subida entre os oito e os dez cêntimos, seguida da Itália, com aumentos entre seis e nove cêntimos.
A Alemanha, por exemplo, surge com aumentos inferiores entre os cinco e os oito cêntimos por litro, enquanto a França não teria ultrapassado subidas entre dois e cinco cêntimos segundo as várias versões da tabela que não especificam se os preços abrangem gasolina e gasóleo.
Além de centenas de partilhas em redes abertas, a tabela também circula em redes fechadas como o Whatsapp e outras redes que permitem a partilha direta em grupos ou por mensagem direta, como contou, na segunda-feira, o comentador Manuel Monteiro, ex-líder do CDS, no programa Café Duplo da TSF: https://archive.ph/IaXw2 (a partir do minuto 8:11).
"Está a circular uma mensagem (...) dizendo que Portugal é o país onde o aumento dos combustíveis é maior face a todos os outros países da UE, que também estão a ser afetados. Repito, está a circular, não sei se é verdade, [mas] se é verdade é autenticamente um escândalo, porque as diferenças que são ali enunciadas são de montante muito considerável", afirmou.
Factos: os dados apresentados para os outros países europeus são falsos e estão muito abaixo dos aumentos reais
Pesquisas reversas pelas várias versões da tabela não permitiram identificar a autoria original, mas a consulta de organismos nacionais e internacionais que monitorizam os preços dos combustíveis, bem como órgãos de comunicação social de alguns dos países citados, revelam que os números apresentados são falsos.
Os dados públicos do Boletim Semanal do Petróleo da Comissão Europeia, por exemplo, que disponibiliza informações e mapas com atualizações semanais dos preços dos produtos petrolíferos em todos os países da UE, demonstram que os valores da tabela viral não correspondem à realidade: https://archive.ph/MuKJk.
A Lusa Verifica fez as contas às diferenças entre os preços médios oficiais registados nas últimas três semanas, entre 23/02 e 09/03, e constatou que Portugal registou aumentos médios de cerca de 22 cêntimos no gasóleo e de nove cêntimos na gasolina, mas estes não foram os maiores aumentos na UE nem no grupo de 13 países identificados na tabela, que incluem o Reino Unido.
Para o gasóleo, há países com aumentos médios idênticos aos de Portugal, como a Espanha e a Bélgica, e sete países com subidas superiores, encabeçados pela Alemanha, com 43 cêntimos, seguida dos Países Baixos (38), Áustria (35), Luxemburgo e Polónia (31), França (30) e República Checa (24).
No caso da gasolina, o aumento médio de cerca de nove cêntimos registado em Portugal entre as mesmas datas é repetido em Itália e ultrapassado por outros nove países da tabela: Alemanha (25), Áustria (20), Espanha, França e Bélgica (13), Polónia e República Checa (12) e Países Baixos e Luxemburgo (11).
A Lusa Verifica também consultou os dados atualizados relativos a toda a União Europeia disponíveis através da plataforma Global Petrol Prices, que também revelam que Portugal está longe de liderar os aumentos nos preços depois dos ataques militares norte-americanos e israelitas ao Irão: https://archive.ph/kgeDn.
Segundo dados disponíveis na segunda-feira, 16 de março, Portugal era o décimo primeiro país da UE com maiores aumentos no gasóleo, com um aumento de 14,6% desde 23 de fevereiro, classificando-se em 33.º lugar a nível mundial, caindo para 13.º na UE e 50.º a nível mundial nos aumentos da gasolina, que rondaram 5,5% no mesmo período.
Pesquisas adicionais nos media europeus também revelam as dimensões dos aumentos de preços na Alemanha (https://archive.ph/L3BkZ), Países Baixos (https://archive.ph/w2R2z) e Áustria (https://archive.ph/yhdY3), por exemplo, três economias que registaram subidas nos combustíveis superiores às de Portugal.
Os preços médios dos combustíveis portugueses são calculados diariamente pela Direcção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), "com base nos preços comunicados pelos postos de combustível, ponderados com as quantidades vendidas do último período conhecido, incorporando os descontos praticados nos postos de abastecimento como cartões frota e outros."
Segundo os dados mais recentes disponibilizados na página da DGEG, o preço médio do gasóleo registou uma subida de 32 cêntimos entre 28 de fevereiro e 16 de março, passando de 1,596 euros por litro para 1,915, enquanto a gasolina simples 95 subiu 17 cêntimos no mesmo período, de 1,681 euros/litro para 1,849: https://archive.ph/8veE9.
Avaliação Lusa Verifica: Falso
É falsa a tabela que atribui a Portugal a maior subida no preço dos combustíveis, acima de outros 12 países europeus. Os dados oficiais revelam que os preços médios do gasóleo registaram subidas superiores em sete dos países identificados, com Espanha a ter aumentos idênticos aos de Portugal, enquanto a gasolina teve aumentos superiores em nove desses países.
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