Especialistas apontam a falta de manutenção e de conclusão da obra como causas.
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A falta de manutenção da obra de regularização do rio Mondego, onde estão incluídos os diques que colapsaram, foi apontada esta sexta-feira pela secção regional do Centro da Ordem dos Engenheiros (SRCOE) como uma das principais causas das cheias da última semana em Coimbra e em Motemor-o-Velho. Em conferência de imprensa, a Ordem criticou o poder político e a Agência Portuguesa do Ambiente, enumerando vários fatores que contribuíram para as inundações.
"Tem de haver um acompanhamento ativo e não reativo", criticou Armando Silva Afonso, presidente da SRCOE. "Há um desinvestimento nas infraestruturas hidráulicas, os planos de emergência não estão atualizados e há uma obra que não foi concluída", referiu o responsável, que é também docente de Hidráulica na Universidade de Aveiro.
Armando Silva Afonso aponta em concreto a suspensão do Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial, que já tinha concessionado a construção de uma dezena de novas barragens lançadas pelo governo de José Sócrates e que foram suspensas em 2016, no primeiro mandato de António Costa.
Alfeu Sá Marques, outro responsável e especialista em hidráulica na Universidade de Coimbra, deixou várias críticas ao Governo: "Começou uma obra e não a acabou e nada fez em afluentes, como os rios Arunca e Anços a jusante, e o Ceira a montante". Alfeu Sá Marques defendeu que o investimento deve passar pela construção de novas barragens, uma delas em Girabolhos, para evitar situações semelhantes no futuro. "Temos de olhar para as barragens com todas as suas funções, de regularização, armazenamento de água e controlo de cheias", frisou.
"O projeto já executado custou cerca de 200 milhões de euros e ficaria concluído com pouco mais de 40 milhões", referiu o responsável.
Especialista sugere uma nova barragem na zona de Seia
A construção de uma nova barragem em Girabolhos, Seia, poderá, segundo Alfeu Sá Marques, vir a impedir a repetição destes fenómenos no inverno e colmatar o efeito de seca registado nos últimos dois anos na barragem de Fagilde (Viseu). "A ser construída esta barragem, que fica a uma cota superior de Fagilde, daria para fazer um túnel de dez quilómetros, contribuindo para a gestão de seca e cheias."
Obras dos diques começaram mas serão insuficientes
Vários camiões-cisterna transportaram esta sexta-feira pedras, terra e areia para o local onde ocorreu o primeiro colapso do dique na margem direita do rio Mondego, na zona de Santo Varão. Duas máquinas retroescavadoras espalharam o material na tentativa de minimizar o impacto dos estragos do fim de semana. Após a conclusão destes trabalhos é necessário avançar com a obra definitiva.
Este sábado, o Presidente da República visita a região afetada.
PORMENORES
Quatro barragens
O rio Mondego tem atualmente uma capacidade de 365 hectómetros cúbicos de água, geridos com as barragens de Fronhas, Raiva, Caldeirão e Aguieira.
Nova albufeira
A projetada barragem de Girabolhos acrescentaria uma capacidade útil de regularização do Mondego de 245 hectómetros cúbicos de água (um hectómetro corresponde a mil milhões de litros).
Duplicar capacidade
Caso se adicionasse à construção da barragem de Girabolhos a edificação de outras duas barragens projetadas para o Mondego (Midões e Asse Dasse), passaria a haver uma capacidade útil de 889 hectómetros cúbicos, mais do que duplicando a capacidade atual.
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