Apagão que afetou toda a Península Ibérica a 28 de abril de 2025 teve origem em Espanha.
Após o apagão de 28 de abril de 2025, o Governo espanhol dividiu culpas entre o operador da rede elétrica nacional e as empresas produtoras de energia, reforçou a supervisão e anunciou um aumento de investimentos em infraestruturas.
O apagão que afetou toda a Península Ibérica teve origem em Espanha e ao longo do último ano foram publicados vários relatórios no país que coincidem no diagnóstico genérico de que foi uma sobrecarga de tensão que provocou o colapso.
Os relatórios são também consensuais na conclusão de que havia capacidade em Espanha para responder à sobrecarga e controlar a instabilidade no sistema, mas discordam nas explicações e atribuições de responsabilidades para isso não tenha acontecido e tenha acabado por haver um apagão inédito na Península Ibérica.
O Governo espanhol apresentou em junho as conclusões da comissão de investigação que constituiu para apurar as causas do "zero elétrico" e revelou que se deveu a uma "combinação de fatores" que causaram elevada sobrecarga de tensão que o sistema foi incapaz de controlar ou absorver, apesar de haver infraestrutura suficiente de resposta.
O executivo atribuiu responsabilidades a uma "má planificação" por parte da Red Elétrica de Espanha (REE, o operador do sistema nacional) e a falhas na resposta a que estavam obrigadas empresas produtoras de energia, com suspeitas de incumprimento dos protocolos previstos para situações de sobrecarga de tensão.
Já a Red Elétrica, num relatório próprio, atribuiu o apagão a incumprimentos de obrigações por parte das empresas produtoras de energia e rejeitou as acusações de "má planificação".
"Se os geradores com obrigação de cumprimento de controlo dinâmico de tensão - os geradores ligados ao sistema no momento do incidente - tivessem cumprido, não teria havido apagão", disse a Red Elétrica, que culpou as empresas de terem começado a desligar pontos de geração de forma "incorreta", num momento em que a tensão no sistema estava "totalmente dentro dos limites" estabelecidos legalmente.
Por seu turno, a associação de empresas de energia de Espanha (Aelec), que integram EDP, Endesa e Iberdrola, atribuiu o apagão à má gestão do operador da rede elétrica espanhola no controlo de flutuações e sobrecarga de tensão.
Apesar das flutuações e sobrecarga no sistema nos dias anteriores, foi programada para o dia 28 de abril "a menor capacidade de controlo de tensão do ano" e especialmente "escassa" no sul do país, onde se iniciou o apagão, segundo a análise da Aelec.
Nesse dia não existia, assim, "suficiente geração convencional para controlar a tensão" e deu-se o apagão, segundo o relatório da Aelec, feito pela consultora Compass Lexecon com o INESC TEC - Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores Tecnologia, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
O relatório da Aelec sublinhou ainda que sobretudo desde 2021 têm aumentado "os episódios de sobrecarga de tensão na rede de transporte" de eletricidade, devido à maior entrada de renováveis, que por causa do quadro legal e regulatório não tinham obrigações nem incentivos para controlo da tensão, que cabe a outros tipos de tecnologias (a designada geração convencional).
Na semana passada, a autoridade da concorrência de Espanha, que num estudo próprio considerou que a causa do apagão foi multifatorial após uma sequência de episódios que desequilibraram o sistema, abriu cerca de 35 processos à Red Eléctrica e às empresas Iberdrola, Endesa, Naturgy, Engie, TotalEnergies e Repsol.
Ao longo do último ano, o Governo espanhol adotou uma série de medidas na sequência do apagão e dos diversos relatórios.
No final de junho de 2025, o executivo aprovou um "pacote de medidas urgentes" relacionadas com o controlo das sobrecargas de tensão no sistema elétrico.
As medidas estão relacionadas, entre outros aspetos, com maior vigilância do cumprimento de obrigações por parte de todos os operadores e empresas, assim como com novas exigências à REE ou a revisão de protocolos para coordenação dos planos de desenvolvimento da rede de transporte de energia e da rede de distribuição.
O pacote integrou ainda iniciativas relacionadas com o armazenamento de energia, assim como incentivos à eletrificação da economia, incluindo a flexibilização de alguns procedimentos.
Neste âmbito, o Governo anunciou o desbloqueamento de 931 milhões de euros de fundos europeus para investimentos na rede de transporte de eletricidade destinados a projetos de descarbonização.
Por outro lado, em setembro, o executivo espanhol anunciou uma revisão do Planeamento da Rede de Transporte de Eletricidade até 2030 com um volume de investimento total de 13.500 milhões de euros, mais 62% do que o contemplado no plano em vigor (2021-2026).
A este aumento o Governo prevê que se somem 20.000 milhões em investimentos na rede de distribuição no mesmo período.
O executivo levantou ainda parcialmente os limites de investimento impostas às empresas do setor.
No último ano, as unidades de energia renovável (solar ou eólica) passaram também a poder controlar a tensão da rede elétrica em Espanha em igualdade de circunstâncias com outras tecnologias de produção convencionais.
A par dos relatórios feitos em Espanha, foi elaborado um por peritos europeus, conhecido em março, que concluiu que o apagão resultou de múltiplos fatores técnicos, sem atribuir responsabilidades legais, remetendo essa avaliação para as autoridades nacionais.
A investigação identificou uma combinação de fatores, incluindo limites de tensão diferenciados, baixa carga nas linhas, falhas em sistemas de proteção e insuficiências no controlo dinâmico da tensão, e fez diversas recomendações, que o Governo espanhol disse já ter adotado ou estar a adotar.
O painel de especialistas classificou o incidente como "o apagão mais grave no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos" e um fenómeno "nunca antes observado ou teorizado".
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